Vou para fora cá dentro, para onde o vinho, o pão e a água são muito mais saborosos.
Esperemos que sem incêndios nem fumo se não for pedir muito.
Até breve.
sexta-feira, agosto 19, 2005
quinta-feira, agosto 18, 2005
O café
Andava toda a gente alterada, nervosa, uma opressão no ar que não se vê mas que se sente, envolvia todas as ruas becos avenidas esquinas de toda a cidade e foi isso que nos fez reparar no homem que entrou no café. Tinha a pele tostada curtida pelo sol, uma face esguia de onde se erguia um nariz saliente; a saca que pousou aos pés do balcão e a dificuldade em se exprimir na nossa língua, congestionou a atmosfera do café tornando-a pesada e quase, quase palpável. Os primeiros a levantarem-se foi um casal que trocava beijos num canto mais resguardado, pediram a conta e saíram rapidamente. Quase de seguida, um grupo de estudantes, tolhado de um medo indizível, desapareceu pela porta e na mesa ficaram restos de bolos por comer e beatas por apagar. O homem continuava no balcão, não tinha cara de acreditar que seis virgens o esperavam no paraíso, mas hoje em dia não se sabe, não se sabe certo? Tomei o meu café, lutando com a minha moral e convicções, não podia ceder a este tipo de pressão, era apenas um homem que ali estava, porventura com tanto medo como nós, numa terra estranha onde provavelmente tinha acabado de chegar e onde depois de trabalhar era explorado por alguém. Fumei nervoso o meu cigarro. O homem, neste momento definitivamente arábico, lutava com as palavras presas na língua para ele incompreensível. O dono do café apercebendo-se da debandada dos clientes, empoleirava-se no balcão tentado perceber o que se passava. Por fim, o homem da tez morena, conseguiu arrancar a informação que desejava e saiu pegando no saco aos pés do balcão. Apaguei o cigarro e sai vitorioso e tremendo para o espaço aberto da rua.
quarta-feira, agosto 17, 2005
Primeiro beijo
O meu primeiro beijo com língua foi nas dunas de uma praia ventosa com uma espanhola já conhecedora da arte. “Uma dúzia - disse-me orgulhosa. - Já vou na dúzia de beijos de língua e até tenho dois namorados em Espanha.” Verguei-me humilde, sem coragem para desvendar a minha realidade bem menos atractiva. Nesse mesmo dia fui picado por um peixe-aranha e aguentei estoicamente o choro até as traiçoeiras lágrimas caírem; aceitei o castigo e, passados estes anos, penso que a minha fé se começou a degradar nesse momento, mas com castigo divino ou sem ele, estava mais que pronto para uma nova viagem.
terça-feira, agosto 16, 2005
segunda-feira, agosto 15, 2005
Nóticias de choque
Hoje o jornal da noite da RTP, passou cinco minutos a falar de um grupo de escuteiros que, imagine-se o inusitado, veio de autocarro de Londres!!! À chegada os familiares choram perante tamanha aventura..! Não vi os outros telejornais, mas imagino que a coisa deve ter sido parecida.
domingo, agosto 14, 2005
Fim de tarde
O velhote andava a passear pela baixa e era uma personagem como nunca tinha visto. Vestia um sobretudo preto que assentava sem dobra nos ombros mirrados. Nos pés, uns sapatos pretos com sola de couro, engraxados e polidos por mão de artista. Uma observação mais cuidada, desvendava um bigode republicano bem tratado, equilibrando a cara esguia e bicuda em forma de pêra. Cabelo ainda o tinha, pintado de negro asa de corvo, sem fio branco. Do centro do rosto, um proeminente nariz com segredos de mil e um cheiros erguia a sua haste, mas o centro nevrálgico eram as sobrancelhas, grossas e respeitosas. Encontrei-o passeando pela baixa, balouçando a bengala com um punho de prata maciça em forma de ganso e olhando com ávida curiosidade para os edifícios, ruas, pessoas e montras como se fosse a primeira vez. De vez em quando sorria, não de ninguém ou de algo em especial, eram só esgares descomprometidos e livres de complemento. Segui-o durante algum tempo, não tinha pressa para ir onde devia. Subiu em direcção à ponte e eu tive um mau pressentimento; um general que adivinhando o fim, veste a melhor farda, dá lustre às medalhas e pega na arma para um último disparo. Ia em direcção à ponte e decidi ir atrás, não fosse o meu olfacto estar correcto. Quando chegamos ao largo da Sé, duas crianças correram em direcção do velhote que as acolheu nos braços e as ergueu no ar como balões. Do bolso do sobretudo, o velhote tirou dois chupas do tamanho de antebraços. Sentei-me rindo do meu fraco nariz. O velhote acenou a uma mulher que fumava encostada a uma porta do convento, mas a resposta foi um virar de costas. Uma das crianças passou a correr bem perto de mim, soltando um grito de criança. O velhote aproximou-se da mulher mas esta deteve-o, ameaçando de nunca mais ver as crianças. Era bem mais nova, talvez fosse filha e as crianças netos. Depois olhou o relógio, chamou as crianças e desapareceram pela quelha. No miradouro da Sé, meti uma moeda no binóculo para ver a ribeira, mas o dia estava enevoado e além dos telhados das casas e dos gritos rúbeos das gaivotas, pouco mais se vislumbrava ou ouvia.
sábado, agosto 13, 2005
Leituras 5

Foi uma coincidência devo admitir, embora depois de ler os oito contos deste “O Buraco na Parede”, me custe esse facto, porque podia ser uma homenagem e se assim fosse, só o meu blog ficaria a ganhar. Mas a verdade é que a única coisa que sabia de Rubem Fonseca, era que tinha sido galardoando com o Prémio Camões em 2003, mas ainda não tinha sentido curiosidade para o procurar. Assim, esta singela coincidência de nomes, fez-me encontrar um autor que merece que os leitores menos atentos, como eu, o encontrem.
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sexta-feira, agosto 12, 2005
Um gelado na praia
Caminhávamos os dois ao fim do dia. Nada como um gelado ao pôr-do-sol. Os meus passos seguindo os teus passos, esmagando a tua fina pegada na areia molhada. O perfil da tua carne branca numa toalha azul. “Passa para a frente. Quero seguir teus passos agora.” Corri até me perder e nesse espaço de tempo o avião explodiu no ar. Transformou-se em segundos numa bola de fogo, fumo e combustíveis fosseis; nenhum passageiro sobreviveu. Até hoje ninguém sabe ao certo o que desencadeou a explosão, embora se fale pelos corredores e hangares da companhia aérea em ataque terrorista? Falha mecânica? Ouço o teu nome na garganta de um pássaro, não são bem as sílabas do teu nome mas é por ti que ele chama.
quinta-feira, agosto 11, 2005
quarta-feira, agosto 10, 2005
"Heroin, it´s my life and it´s my wife"
Por falar em Velvet Underground, existia na escola preparatória Gomes Teixeira, quando para lá fui estudar, 82/83, uma grafite em letras brancas corridas, virada para a rua Júlio Dinis, que alertava os transeuntes dizendo: “Heroin, it’s my life, it’s my wife!”. Aquela frase fora do contexto sempre intrigou os meus 12, 13 anos; que mulher, que heroína inspiraria tamanha devoção? Mais tarde descobri o grito de Lou Reed e com ele veio a guerra, as mutilações, os petardos a caírem sem piedade no meu bairro, abrindo intransponíveis crateras entre famílias e amigos.
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terça-feira, agosto 09, 2005
Regresso
A chuva chegou com força demoníaca varrendo a cidade da sujidade. Escorriam rios de água e lama pelas ruas desertas. Cães vadios remoíam o lixo e candeeiros com luz trémula perfilhavam os passeios em legiões de fantasmas. A mulher tinha desaparecido o emprego era uma farsa. Rajadas de vento levantavam nuvens de folhas do chão que se erguiam no ar em pequenos espirais. As mãos geladas a custo tiraram a chave do bolso; a fechadura acolheu a velha amiga. Subiu as escadas carcomidas de húmidade e maus-tratos. Onde estava alguém? Sentiu uma estranha necessidade de fazer algo por aquele pobre prédio, talvez envernizar as escadas. Podia arranjar o soalho de casa. O cheiro da intimidade misturava-se com o ar fresco da janela aberta. Lavou a cara com água morna e deixou-se ficar a olhar ao espelho até os olhos, o nariz e a boca se começarem aos poucos a deformar e uma massa de carne aparecer reflectida; uma outra face no espelho, neste momento era a dela. Tirou a garrafa do saco e deu uma golada; a pressa de chegar a casa desapareceu, agora queria sair, mas para onde ir; a alma rota esvazia. Não havia preparação para tal coisa. O cheiro a mofo dos livros nas estantes, o papel na parede, o sofá restaurado, tudo aquilo era dual. Não demorou muito tempo até M. pegar num martelo, numa chave de fendas e começar a arrancar os tacos do chão.
segunda-feira, agosto 08, 2005
Companheiro de fumo
Sempre que venho à varanda fumar um cigarro, lá está ele no prédio do outro lado. Não lhe consigo ver as feições, só a beata incandescente entre as janelas da marquise, mas sei que está a olhar para mim como eu para ele.
domingo, agosto 07, 2005
6 de Outubro de 1972



Fiz uma pesquisa na net para descobrir personalidades que fazem anos no mesmo dia do que eu. Descobri dois jogadores da bola, um defesa sueco (Andreas Jakobsson) e um guarda-redes australiano (Mark Schwarzer). Depois há um jogador de futebol americano J.J Stokes (poderoso quarterback), aquele ali em cima com o número 83 e um actor Koreano chamado Ryu Si Won. Nunca tinha ouvido falar deles e eles certamente nunca ouviram falar de mim, mas que temos algo em comum isso ninguém pode negar.
Em anos diferentes mas também a 6 de Outubro, temos o primeiro dia de emissão da SIC e a morte da Amália Rodrigues. Sim é verdade, desde à cinco anos para cá, que passo o dia de aniversário a ouvir a saudade e a melâncolia do fado; como se já não bastasse o facto de envelhecer mais um ano.
sábado, agosto 06, 2005
Dia de pesca
Acordei sobressaltado já passavam dez minutos do meu horário de trabalho. Tomei banho à pressa, engoli um copo de leite frio, vesti-me, abri a porta da rua e voltei à sala; sentei-me, hoje não ia trabalhar. O dia estava lindo e o sol primaveril espreitava pelas janelas. “Estou? Susana? Diga por favor ao Sr. Luís que não vou trabalhar, passei mal a noite e vou ver se arranjo uma consulta.” Fui à despensa e tirei as canas de pesca, herança do meu avô; testei o carreto em frente ao espelho. “O Sr. Luís telefonou a dizer que também não vinha trabalhar, parece que o mal é geral”. O carreto lubrificado com óleo de fritos deslizava na perfeição; chumbos em forma de corações e anzóis em forma de anzóis. Vesti um colete verde tropa que nem sabia existir. Arrumei as tralhas dentro de um saco de pano com cheiro a minhoca tostada e desci as escadas, eu, o pescador. Só depois de arrancar o carro é que me lembrei que nunca tinha pescado sozinho o que só aumentou a minha determinação.
Um cartaz na marginal: “Temos Bixa.” Mas naquele dia, só pulga: “É melhor para o robalo.”
Montei um pequeno banco de tecido. A primeira vez que lancei, ficou tudo no rio, só não foi a cana porque a agarrei, a linha velha e gasta rebentou; só um pequeno contratempo até o robalo de cinco quilos saltar para o meu cesto. Lancei. Foi um bom lançamento quase alcançando Gaia; sem obviamente exagero nenhum. Sentei-me à espera. Os barcos, os barcos rasgando a água. O sono morno. Um casal passeando de mão dada. Um puxão, agarrei na cana, outro puxão. “Deixa-o cansar, o peixe precisa de pensar que está a salvo, não queiras tirá-lo logo, dá-lhe linha, não o assustes.” Senti-lhe o pulso dei-lhe linha e ele foi. Por cada espaço que lhe concedia, puxava o dobro para a margem. Com a mão livre tentei chegar ao saco. O coração disparou, o Sr. Luís, olhava-me por cima do ombro. Estava acompanhado de uma jovem e bela rapariga. Parei. Fingi não ver. “Não deixe o peixe escapar homem”. Tentei concentrar-me no peixe, vi-lhe a boca na superfície espelhada. Estava sem forças para se debater, no ponto onde eu o queria. Levantei a cana e agarrei-o com a mão esquerda. “Que belo peixe”. Disse para a sorridente adolescente recomeçando a andar. Mas era só uma velha tainha e aquela rapariga não era a mulher do Sr. Luís.
Um cartaz na marginal: “Temos Bixa.” Mas naquele dia, só pulga: “É melhor para o robalo.”
Montei um pequeno banco de tecido. A primeira vez que lancei, ficou tudo no rio, só não foi a cana porque a agarrei, a linha velha e gasta rebentou; só um pequeno contratempo até o robalo de cinco quilos saltar para o meu cesto. Lancei. Foi um bom lançamento quase alcançando Gaia; sem obviamente exagero nenhum. Sentei-me à espera. Os barcos, os barcos rasgando a água. O sono morno. Um casal passeando de mão dada. Um puxão, agarrei na cana, outro puxão. “Deixa-o cansar, o peixe precisa de pensar que está a salvo, não queiras tirá-lo logo, dá-lhe linha, não o assustes.” Senti-lhe o pulso dei-lhe linha e ele foi. Por cada espaço que lhe concedia, puxava o dobro para a margem. Com a mão livre tentei chegar ao saco. O coração disparou, o Sr. Luís, olhava-me por cima do ombro. Estava acompanhado de uma jovem e bela rapariga. Parei. Fingi não ver. “Não deixe o peixe escapar homem”. Tentei concentrar-me no peixe, vi-lhe a boca na superfície espelhada. Estava sem forças para se debater, no ponto onde eu o queria. Levantei a cana e agarrei-o com a mão esquerda. “Que belo peixe”. Disse para a sorridente adolescente recomeçando a andar. Mas era só uma velha tainha e aquela rapariga não era a mulher do Sr. Luís.
sexta-feira, agosto 05, 2005
Os teus beijos
Os teus beijos ondas do mar
Os teus beijos ferro em brasa
Os teus beijos sufocados
Os teus beijos bom dia.
Os teus beijos espadas
Os teus beijos água fresca
Os teus beijos vorazes
Os teus beijos boa tarde.
Os teus beijos folhas de eucalipto
Os teus beijos montanha de neve
Os teus beijos relâmpago
Os teus beijos boa noite.
Os teus beijos ferro em brasa
Os teus beijos sufocados
Os teus beijos bom dia.
Os teus beijos espadas
Os teus beijos água fresca
Os teus beijos vorazes
Os teus beijos boa tarde.
Os teus beijos folhas de eucalipto
Os teus beijos montanha de neve
Os teus beijos relâmpago
Os teus beijos boa noite.
quinta-feira, agosto 04, 2005
Dia na cidade
Quando a manhã regressou ao Porto e o encontrou com nuvens de fumo no ar, recusou-lhe a luminosidade; depois o sol, tossindo febril, amarelou doentiamente o fim de tarde.
quarta-feira, agosto 03, 2005
terça-feira, agosto 02, 2005
Drunk
I think I´m getting drunk
No love can save me now
I just want a last beer honey
To go away from this crazy town
I must be dreaming
A happy end
I´m to drunken baby
Please be my friend
And buy me a last bottle
I don´t have no money left
Please, please, please the last one
I promise I don´t chase you anymore
I must be dreaming
With a happy end
I´m to drunken baby
Please be my friend
I got bad liver
Right one
I got bad brain
Come on
I´m a loser baby
Right one
No love can save me now
I just want a last beer honey
To go away from this crazy town
I must be dreaming
A happy end
I´m to drunken baby
Please be my friend
And buy me a last bottle
I don´t have no money left
Please, please, please the last one
I promise I don´t chase you anymore
I must be dreaming
With a happy end
I´m to drunken baby
Please be my friend
I got bad liver
Right one
I got bad brain
Come on
I´m a loser baby
Right one
segunda-feira, agosto 01, 2005
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