terça-feira, março 18, 2008

The Black Keys

The Black Keys são uma banda de blues-rock composta por Daniel Auerbach (voz e guitarra) e Patrick Carney (bateria), de Akron, Ohio. Conheço bem o álbum Rubber Factory, o primeiro que ouvi e que ainda hoje me parece o mais conseguido e nunca mais deixei de lhes seguir os passos. Attack & Release lançado este ano, trás boas recordações e é de ouvir com atenção. A designação blues-rock não é inocente já que considero que a mescla que eles conseguem entre dois géneros é assinalável, muito inteligente e sensível. A técnica de Slide, que consiste em deslizar um pequeno tubo oco sobre as cordas eléctricas, trás à lembrança as paisagens de Ray Cooder e mais recentemente Ben Harper. Deixo aqui uma música de Rubber Factory.
Discografia completa

The Big Come Up (2002)
Thickfreakness (2003)
Rubber Factory (2004)
Magic Potion (2006)
Attack & Release (2008)


The Black Keys_the lengths

domingo, março 16, 2008

Amy Winehouse & Joss Stone

Em que estas duas cantoras se assemelham? Primeiro as divinas vozes de ambas e um conjunto de boas e algumas excelentes músicas. Em segundo, o facto se serem ambas Inglesas e não Norte-Americanas. Estranho? Talvez não. O facto de serem ambas brancas a cantar músicas com raízes negras, como o Blues? Estranho? Claro que não, os Rolling Stones fizeram isso nos anos sessenta. E quais são então as diferenças além das óbvias? Lembram-se da polémica sobre Joss Stone quando se falou de como era possível uma rapariguinha de 18 anitos, protegida da aspereza da vida por uma educação cuidada, proveniente dos subúrbios de Londres, e que saltou para o estrelato numa espécie de “Chuva das Estrelas” made in England, ter uma voz comparável a Aretha Franklin, a diva Americana que tinha sofrido nos becos urbanos a agrestes desventuras emocionais? Uma voz que toda a gente sabia cantar a dor e a tristeza de uma vida vivida e dolorosa? Não, não era possível! Como podia ser possível?

Porque que é que o público americano prestou mais reverência e entusiasmo a Amy? Porque ela é aquilo que uma cantora de blues tem de ser. Aquele redemoinho anárquico que gira na vida privada de Amy, é o que todos queremos ver. As drogas, o álcool, namorado na prisão, clínicas de reabilitação todos os meses. Ela sim tem o direito para cantar os Blues. Terá? Ela sofre o suficiente para a sua voz conter a angústia dos Blues. Sofrerá?

Quem tem direito a quê? Parece-me, de facto, e dou o braço a torcer, que sinto mais a rua, o sangue e a ruína emocional na voz de Amy, do que na de Joss Stone. Serão as letras das músicas? Será impressão? Será indução? Quem sabe? Talvez não seja realmente possível uma miúda sem calos ter a mesma voz de Aretha Franklin. E Amy será uma miúda mimada? Existe sempre qualquer coisa, qualquer coisa que vem de dentro, mas de tão dentro que é impossível imitar. Talvez nada disto tenha importância alguma para quem ouve com prazer a música de ambas. Mas a história, esse rolo compressor, dirá de sua justiça daqui a quase nada.

sábado, março 15, 2008

Sam Shepard

Foi em 1943 que Sam Shepard nasceu. O seu pai era piloto da força aérea e os anos em que passou perseguindo o pai de base para base causaram-lhe forte impressão, senão os temas para as suas primeiras peças dramáticas: "Eu sinto que nunca tive uma casa, compreendem? Sinto-me ligado a este pais, mas nunca sei exactamente onde pertenço...Existe sempre este nostalgia por um lugar, um lugar onde consiga encontrar-me comigo mesmo."
Estes dados biográficos de Sam Shepard, retirados de http://www.todayinliterature.com/biography/sam.shepard.asp#top, são exactamente as sensações que retiro quando leio as suas peças ou os seus contos, uma permanente procura de algo que teima em nunca chegar, as corridas infernais, mesmo dentro de um pequeno espaço, nas peças de teatro, ou em planícies a perder de vista, com rancheiros, cowboys e gente deslocada no espaço e no tempo, como primordialmente acontece nos seus contos, são fruto desta ausência de sentido de pertença muito vincado na obra de Shepard. Para quem quiser conhecer um pouco da obra deste autor sugiro estas obras.
Crónicas Americanas (Motel Chronicles), da Difel, revela o mundo vertiginoso e por vezes surpreendente do homem, por detrás das peças que tornaram Sam Shepard uma lenda viva do teatro contemporâneo. Shepard escreve neste livro pequenas crónicas autobiográficas – o nascimento em Illinois, memórias da infância na base militar de Guam, em Pasadena e na Califórnia do Sul, as suas aventuras como rancheiro, criado de mesa, músico de rock, dramaturgo e actor de cinema.Muitos temas deste livro estão na base da peça Superstitions e de Paris, Texas, o filme de Wim Wenders de cujo argumento é autor e que, em 1984, recebeu a Palma de Ouro do Festival de Cannes.
Loucos por Amor (Fool For Love), da Relógio D'Água é uma peça teatral que contém algumas das histórias mais intensas e comoventes que Sam Shepard escreveu. Shepard cria dois personagens, May e Eddie, enredados na força de um desejo que não pode ser satisfeito.

sexta-feira, março 14, 2008

Raymond Carver


Raymond Carver nasceu em 1938, no seio de uma família muito pobre. Empregou-se numa serração de madeira e, aos 19 anos, casou. Para sustentar a família foi porteiro de um hospital, vendedor de enciclopédias, motorista de pesados, empregado numa bomba de gasolina, etc.., conseguindo, porém, tempo para frequentar um curso de "escrita criativa". Após vários dramas provocados pelo seu alcoolismo, a mulher deixou-o definitivamente em 1977. Conheceu a poetisa Tess Galagher, com quem partilhou os últimos onze anos da sua vida. "Queres fazer o favor de te calares?" (Teorema, 1989), "De que falamos quando falamos de Amor" (Teorema, 1987) e "Catedral" (Teorema, 1983), são os livros de contos mais conhecidos entre nós. Infelizmente, já não conseguiu vir a Lisboa, onde o esperávamos em Outubro de 1988. A morte prematura, em consequência de um cancro, levou-o a 2 de Agosto de 1988.

Um dos contistas norte-americanos que realmente me ficou na alma. Muitas passagens dos seus textos aparecem na minha cabeça sem serem convidados e em ocasiões estranhas e inoportunas. Raymond Carver não é fácil, pelo contrário é chato, é provocante, é intrigante mas quem quiser ler para não ficar como estava, os contos de Raymond Carver contém a promessa de não deixar ninguém emocionalmente ileso.

quinta-feira, março 13, 2008

Times They Are A Changing

Já não te falo há muito tempo, nem sei ao certo porque aqui estou novamente contigo. Talvez porque hoje vi um filme, um delicioso filme, apeteceu-me chorar, vi-me a mim mesmo desfeito em lágrimas, mas acho que interiorizei que isso não é coisa de pessoas feitas e gordas. Agora gostava de ter chorado, só para ir contra essa estúpida premissa. Dois anos sem aqui passar. Nesta ausência muitas coisas aconteceram, muitas ficaram por acontecer e muitas desejámos fazer acontecer, mas tu sabes, o ritmo impede devaneios e tudo nos impele ao caminho recto sem sobressaltos, mas como eu adoro curvas, tropeções e todos esses actos egoístas que me fazem cair para depois me puder levantar outra vez. Renascer! Mudar de casa, mudar duas ou três vezes de emprego por ano, saltos mortais em profissões, piruetas no futuro incerto mas sedutor! Vontade de rir, tu já reparaste como nos tentam castrar lançando para o ar palavras gélidas como empreendedor, sucesso, investimento, economia, e impigem todas as sílabas como se tirassem um coelho da cartola? Se insistirmos nisso os chineses arrebentam com tudo, no mais execrável pesadelo da guerra fria, no pior dos dois lados. Mas para que te falo disto tudo? O que eu queria dizer é que hoje é o fim do egoísmo, a minha filha cresceu, devias vê-la a brincar no chão da sala com legos e bonecos azuis. Salta de sofá em sofá com se fosse vento e não me deixa parar. Eu agarro-a quando cai desvairada e respiro sem pensar. Tento não deixá-la muito tempo em frente à televisão, mas o que é que um pai pode fazer?

domingo, fevereiro 10, 2008

Passado um ano

Passado um ano pensei em dar aqui uma saltadinha. Só para cumprimentar velhos amigos. Olá como estão? Este ano foi fértil em mudanças na minha vida, novas músicas, novas leituras, estudos (voltei à escola, quem diria !!!). Para já o que eu gostava era conseguir voltar a escrever aqui com alguma regularidade. Vamos lá ver se consigo. Um abraço e até jazz.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Claro que SIM que claro!

quinta-feira, outubro 12, 2006

Canções 11



Sobre Tom Waits já disse tudo num post de 31 de Março (Canções 8), só não tinha ainda descoberto o YouTube nessa altura.
Video realizado por Jim Jarmusch.

terça-feira, outubro 10, 2006

Diário de viagens fictícias

Esta é uma cidade na foz de um rio escuro e esguio que abriu montanhas em dois à sua passagem, cravou braços nas margens e não parou senão perante o grande e interminável oceano que o acolhe com tumultuosas e indispostas ondas de espuma, apesar dos séculos, o rio será sempre um intruso. Mas se o rio se força no mar, não é menos verdade que a água salgada entra no caudal doce até quase trinta quilómetros no interior da terra quente. De uma colina alta junto à foz, observa-se a cidade a descer, trapalhona, até ao rio, ou melhor será dizer, a subir a partir do rio, porque são as margens, o ponto originário da evolução deste burgo, apesar de ao primeiro contacto visual, parecer que a cidade caíu do alto da montanha até ao rio, numa avalanche de telhas, cimento, janelas empedradas e animais aflitos.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Parabéns eu



Quando a tua morte se entrelaçou no meu nascimento, foi quando mais reparei em ti. Pensei neste dia que desapareceste e eu nasci, fazer-te uma pequena homenagem, nada de esfinges, tu sabes como detesto regressados, só uma coisa simples. Depois pensei que homenagens já tens bastantes e talvez o melhor seja pedir-te, não uma benção, antes uma direcção, um caminho seguro onde a tua voz guie os meus passos através da bruma dos dias, não me deixando impune. Não leves a mal a minha intenção é pura.

sábado, setembro 16, 2006

Arqui-inimigo



O meu arqui-inimigo pensa em coisas que não lembra às mais terriveis mentes. Tem pensamentos dementes e podres de insanidade. O meu arqui-inimigo tem o mesmo nome do que eu mas não sou eu, veste um corpo igual ao meu mas que não é o meu. É o diabo no meu ombro esquerdo, o sangue nas minhas veias. Tem super poderes e usa-os quando me deixo vencer, como a preguiça, a presunção e por vezes atira palavras pela minha boca que não tive sequer tempo de assimilar. O meu arqui-inimigo é forte, mas vou ganhando, às vezes perdendo batalhas, mas contra o amor e a razão, os meus super poderes mais fortes, ele fraqueza e desaparece, para novamente reaparecer. Nunca vou conseguir matá-lo, ele é eu, eu sou ele.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Leituras 11


Não gostei tanto como "Os nomes", mas não deixa de ser mais um romance conseguido por Don Delillo, este do ano de 1991. Convém reter uma frase deste livro, que nada tem de especial, mas, e depois de três dias de documentários sobre o 11 de Setembro (até sonhei com aquilo), achei interessante transcrever.
" Da janela virada a sul avistavam-se, recortadas na noite, as torres do World Trace Center, extremamente proximas e densas. Nelas, a palavra "ameaça" surgia em toda a extensão, toda a iminência da sua força."

terça-feira, setembro 12, 2006

Parte do que sou...



...anda algures entre estes livros e discos,
esquecido e espalhado nestas estantes,
ou,
finalmente arrumei o meu canto.

segunda-feira, setembro 11, 2006

quinta-feira, setembro 07, 2006

Morto no deserto



Não se consegue ver mas eu digo o que está ali escrito: 07/09/2006, na categoria Teatro no Porto, não foram encontradas ocorrências que satisfaçam a sua pesquisa. Finalmente a politica do nosso presidente de câmara está a dar frutos.

Pearl Jam



Tinha prometido a mim mesmo nunca mais ir a LIsboa ver um concerto e voltar no mesmo dia, mas foi mais forte do que eu. Ainda bem que faltei à promessa, os Pearl Jam deram um concerto memorável. Eddie Vedder falou bastante em português, principalmente para elogiar as ondas do nosso litoral. Cantou-se em coro as músicas mais antigas, fizeram dois encores para tocarem uma versão dos RAMONES em homenagem a Joey Ramone e o já habitual "Keep on rocking on the free world" de Neil Young. Valeu!

sexta-feira, setembro 01, 2006

Canções 10

VELVET UNDERGROUND

Heroin

Mais um murro no estômago. Ouvi esta canção em casa de um amigo da secundária, corriam os anos oitenta. Apesar dos rasgados elogios que ele fez aos Velvet Underground eu não vi na altura a importância do que estava a ouvir. Alguns anos mais tarde e depois de muita outra gente me ter falado nos Velvet, eu decidi entender. Comprei o álbum da banana e descobri em domino a Factory, Andy Warhol e os seus filmes ultra realistas. Descobri Lou Reed, porventura o meu maior formador musical. A heroína, essa malfadada, descobri-a nas ruas de outras maneiras e quando tal aconteceu, a canção de Lou Reed começou a fazer sentido.

quinta-feira, agosto 31, 2006

Em memória de Pat



Vou escrever uma pequena história sobre esta tocante notícia publicada pelo Jornal de Letras, é imperativo, é fundamental para mim entrar dentro de uma mente sem memória, porque também sinto e imagino muitas vezes a sensação de ausência, de algo misterioso e encoberto pelo véu do passado que vagueia furtivo em mim.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Intercéltico Sendim 2006



Um festival diferente que não move massas. A maior parte das bandas eram espanholas e muito interessantes, de resto foi boa comida, sol, mergulhos no rio douro e bom ambiente. Pena ser tão longe, e daí, ainda bem que é longe.

terça-feira, julho 11, 2006

Amanhã seria diferente

És para mim um lobo negro que corre entre ervas altas olhos vermelhos do inferno que sentes e os dentes, reluzentes, no branco da lua cheia. Corres atrás de mim com uma fome canina perseguindo na bruma, na tumba, rumba. Finalmente alcanças-me e tudo que fazes é lamber-me as mãos, como um rafeiro abandonado, enfadado, regalado, rebolas a meus pés.

quarta-feira, julho 05, 2006

Estou triste é certo, mas não assim tão triste

"Uma das coisas de que me ocupo neste livro, e que, aliás, venho perseguindo desde sempre, é a questão da identidade. (...) A grande possibilidade de sermos felizes é poder construir e reconstruir identidades múltiplas ao longo da vida"


MIA COUTO "Jornal de Letras" de 10 de Maio.

sábado, junho 10, 2006

Sexta

Este mundo não é nosso,
Eu sei irmão abraço,
Agarra-me nesta injecção que nos dão,
A cura da nossa inquietação.

Estão fartos os meus irmãos,
Nossa loucura não é a deles,
Corrupio, devaneio, aguerrido,
Não são flores não,
É só vil,
Porcas folhas de papel
Tua paixão queremos paixão,
A carne solta do corpo
Amor a desbotar rebentar.

Estão fartos meus irmãos,
Do vil como eu.
Eu farto estarei também.
Sempre em vós respirarei.
Aconchego.
Sempre.
Vos procurareis.

quarta-feira, maio 31, 2006

Um Mal Menor

Tudo começou por um insignificante murmúrio, um pequeno zumbido ruminando na testa. Depois passou para tonturas e por fim o desmaio que culminou na passagem pelo hospital. “Tem pouca glicose, precisa descansar, as tensões muito baixas, análises a isto e àquilo”, tudo misturado com conselhos médicos e olhares para os ponteiros, disfarçados do relógio. Andam no ar, as palavras como roldanas formando perfeitos e científicos mecanismos. Eu muito longe dali, a brincar com a Joana na varanda da minha avó, soprando bolas de sabão ao vento. “Mais açúcar, precisa de mais açúcar para equilibrar o organismo”. Se lhe explicasse o que sentia encolhia os ombros, mesmo assim, abriria o grande livro das doenças e desequilíbrios gerais para nada encontrar. “ Para o seu mal não existe cura, caro amigo”, diria resignado. ”Mas tenho um médico meu amigo que estuda casos assim...”, e pousaria na minha mão um cartão dourado. Obrigado vou indo, já me chega a vizinha do lado, e a gata com cio, largando gemidos do terceiro andar. Já me chega a chuva, a merda da chuva corroendo os passeios encharcando as roupas enegrecendo o coração, sim senhor doutor, a porca da chuva que teima em não amainar por mais que eu dance em círculos. É aqui que volto a Joana, debruçada na varanda, a soprar ao vento grandes e redondos balões de sabão.

sábado, maio 27, 2006

Ainda sou do tempo...





... do Café Luso, onde se faziam tertúlias intermináveis pela noite dentro. Deste Rés do Chão e da gente nocturna de toda a espécie que por ali se sentava. Do cheiro a haxixe entre as mesas e dos saudosos príncipes, a cerveja de pressão que fez história na cidade.

segunda-feira, maio 22, 2006

...e passou um ano.

Este blog faz hoje um ano. Nesta parede que é a minha vida, muitos amigos espreitaram pelo buraco e por aqui andaram e comentaram. Esses amigos estão todos aqui ao lado, onde espreito também. Comecei com um conto chamado Redenção, sem saber que a redenção foi o verdadeiro móbil deste blog, este despejar de coisas por vezes inúteis que nos sobrecarregam a alma. Desde de 22 de Maio do ano passado, muitas coisas aconteceram. Tive uma filha, casei, tive desempregado, desarranjei emprego e voltei a desarranjar. Mudei de casa, comprei uma casa. Sofri como em todos os anos mas sorri muito também, que a vida mais não é do que momentos roubados à rotina. Nestes últimos dois meses pouco tempo aqui passei e nem para dar uma espreitadela aos amigos arranjo um minuto. Hoje saio de casa às 8 da manhã e só volto às 8 da noite. Por aqui me vou arrastando mesmo assim. Comecei um novo blog, onossocalao.blogspot.com, onde rapidamente coloco algum calão que coleccionei ao longo dos anos e pouco mais tempo me sobra. Mas por cá vou continuar a andar com regularidade indefinida.


Bem Ajam vizinhos!

terça-feira, maio 16, 2006

Incêndios florestais

Os centros comerciais são os eucaliptos do urbanismo, onde são implantados secam tudo à volta.

sábado, maio 06, 2006

segunda-feira, maio 01, 2006

Leituras 10


"O que teria acontecido nos EUA e no mundo se o célebre aviador de ideias anti-semitas, Charles Lindbergh, se tivesse apresentado às eleições em 1940 e tivesse derrotado Franklin Roosevelt?"

O livro é muito bom, todos os Philip Roth são aliás muito bons. Apesar de não ser um romance como "A Mancha Humana", inteiramente centrado em questões individuais, "A Conspiração" é sobretudo um livro sobre a comunidade judaica nos EUA antes da segunda grande guerra. O narrador é o filho mais novo de uma família judaica que encarna a comunidade em todas as facetas.
Apesar da ficção, notei ainda a omissão a todas as outras raças dos EUA que foram, com ou sem Lindbergh, oprimidas nesses anos.

sábado, abril 29, 2006

Canções 9

PINK FLOYD

Nobody Home

I've got a little black book with my poems in.
Got a bag with a toothbrush and a comb in.
When I'm a good dog, they sometimes throw me a bone in.
I got elastic bands keepin my shoes on.
Got those swollen hand blues.
Got thirteen channels of shit on the T.V. to choose from.
I've got electric light.And I've got second sight.
And amazing powers of observation.
And that is how I know
When I try to get through
On the telephone to you
There'll be nobody home.
I've got the obligatory Hendrix perm.
And the inevitable pinhole burns
All down the front of my favorite satin shirt.
I've got nicotine stains on my fingers.
I've got a silver spoon on a chain.
I've got a grand piano to prop up my mortal remains.
I've got wild staring eyes.
And I've got a strong urge to fly.
But I got nowhere to fly to.
Ooooh, Babe when I pick up the phone
There's still nobody home.
I've got a pair of Gohills bootsand I got fading roots.
Volto sempre ao Roger Waters quando me sinto assim...

sexta-feira, abril 28, 2006

Poema

Ela entrou com embaraço, tentou sorrir, e perguntou tristemente - se eu a reconhecia?
O aspecto carnavalesco lhe vinha menos do frangalho de fantasia do que do seu ar de extrema penúria. Fez por parecer alegre. Mas o sorriso se lhe transmudou em ricto amargo. E os olhos ficaram baços, como duas poças de água suja... Então, para cortar o soluço que advinhei subindo de sua garganta, puxei-a para ao pé de mim e, com doçura:
- Tu és a minha esperança de felicidade e cada dia que passa eu te quero mais, com perdida volúpia, com desesperação e angústia...


Manuel Bandeira (1886 - 1968)

domingo, abril 23, 2006

A minha cidade campeã.

A minha cidade está em ebulição. Ouço buzinas no meu jardim, perto, longe. Um todo de buzinas como um zumbido. O Porto é campeão, o meu clube, a minha cidade. Não fui para a baixa, tenho uma filhota que ainda não entende nada de bola e por mim pouco vai ficar a entender, desde que seja do FCP. Não desejo mal aos meus adversários mas no ano passado custou-me ouvir umas buzinadelas esporádicas na rua, é como se o meu vizinho ficasse com a promoção no emprego e viesse festejar para a porta da minha casa.
Lembro-me quando o meu irmão tinha 13 anos e numa noite de S.João, perguntou inocente ao meu pai: “Este ano não ouve aquela festa antes do S.João?” A festa era o Porto campeão, foi o Boavista e bem aja também. A cidade também vibrou.
Viva a minha cidade campeã!

sexta-feira, abril 21, 2006

Novo blog

o blog onossocalao.blogspot.com é uma aventura falada. Tudo que dizemos mas que não vem no diccionário, às vezes até vem. É a aventura que decidi iniciar em paralelo com o buraco. Lembram-se de alguma expressão curiosa?

segunda-feira, abril 17, 2006

Porto

O holandês ganhou o derby que realmente interessava e isso é tudo que interessa agora.



Are you talking to me?

quinta-feira, abril 13, 2006

Fumar Mata

Acabemos com o fumo nos locais de trabalho. Já agora acabemos com a imbecibilidade humana também, acabemos com a poluição sonora que é ouvir algumas pessoas falar e acabemos também, com as roupas pindéricas e penteados desastrosos que por certo tiram anos de vida a muito gente incauta que olha sem querer, acabemos com o mau hálito do vizinho da secretária ao lado e acabemos de vez com os politícos, juizes embargadores e árbitros de futebol. A Isabel não sei quê, podia também desaparecer, da televisão. Acabemos com os condutores de domingo, anos de vida nos são tirados por essa espécie perfeccionista e piquinhas. Acabemos com as multas. Porra é tão fácil, afundamos o país, façamos dos castigos corporais lei, batiamos nas crianças sem distinção e carimbar isso noutra lei, acabemos com os bons pais de família porque é também de lei e reconquistemos tudo outra vez. Acabemos com desabafos assim mal escritos e desaguemos para outro parágrafo antes que alguém acabe comigo.

quarta-feira, abril 12, 2006

Espuma dos dias

O único romance que tenho com o meu emprego é cheque ao fim do mês.

sexta-feira, abril 07, 2006

Os copos dançam

Três copos no balcão dançam,
A balada dos perdidos,
Batons vermelhos no escuro
Abrem-se em sorrisos duros.
Já fomos muito mais
Heróicos nas batalhas travadas,
Armas com cravos exportávamos,
Gente era gente não uma patente.

terça-feira, abril 04, 2006

Ouço um autocarro na noite

Ouço um autocarro na noite,
Ofegante na desacelaração em desabafo,
Lambe a curva apertada
Antes da acelaração desesperada,
Rasgando passados esquecendo promessas,
Para a frente é que é estrada.

Quem levará aquele carro,
A esta hora da madrugada?
Que Porto procuram os viajantes?
Preferem crescer embriegados
Dos crescidos adultos mutilados,
Ou presos no cansaço de um coração tardio?

Decidi, quero entrar,
Não espero nem mais um segundo,
Parem o mundo que quero meter o pé,
E como um intruso participar,
Nesta farsa burlesca, deveras dantesca.
Coluna direita, olhos em frente.

segunda-feira, abril 03, 2006

Canção de amigo

Meu amigo não dispensa
Três dedos de bilhar,
Uma cerveja fresca,
Na esplanada junto ao mar.
Não conta as estrelas
Mas tem jeito de sonhador,
Um sorriso franco,
Que se confunde com Amor.

Não entra em discussões
Que sabe vai perder,
Prefere a mulher fresca
Que passa a correr.
Tem um coração ingénuo
Impossível de mal tratar,
Mas se o caldo se entorna,
Mete o punho até estalar.

Gostava um dia de ser
Alguém forte como ele,
A vida não lhe mete medo
Seja qual for o enredo.
O sorriso no canto da boca
De quem nada pode perder,
Porque cresceu sem nada
E tudo parece ter.

domingo, abril 02, 2006

Parque Biológico de Gaia







Sugestão para domingo solarengo

sexta-feira, março 31, 2006

Canções 8

I wish I was in New Orleans - Tom Waits

Well, I wish I was in New Orleans
I can see it in my dreams
arm-in-arm down Burgundy
a bottle and my friends and me
hoist up a few tall cool ones
play some pool and listen to that
tenor saxophone calling me home
and I can hear the band begin
"When the Saints Go Marching In"
by the whiskers on my chin
New Orleans, I'll be there

I'll drink you under the table
be red nose go for walks
the old haunts what I wants is
red beans and rice
and wear the dress I like so well
and meet me at the old saloon
make sure there's a Dixie moon
New Orleans, I'll be there

and deal the cards roll the dice
if it ain't that ole Chuck E. Weiss
and Clayborn Avenue me and you
Sam Jones and all
and I wish I was in New Orleans
I can see it in my dreams
arm-in-arm down Burgundy
a bottle and my friends and me
New Orleans, I'll be there.




Podia ser outra canção, mas optei por esta, uma das primeiras que ouvi (Small Changes, 1976), podiam ser dezenas de outras igualmente relevantes para mim. Mas escolhi esta e aqui fica a minha pequena homenagem a um dos melhores escritores de canções que conheci e que nunca tive a oportunidade de ver ao vivo.

quinta-feira, março 30, 2006

Porca Miséria

Extraído de:

http://www.letra.org/spip/ ( ConsumeHastaMorir)


Se o mundo fosse uma pequena cidade de 100 habitantes.

Haveria:

57 asiáticos
21 americanos
14 europeus
8 africanos

52 seriam mulheres
48 homens

30 seriam de cor branca, e
70 não teriam cor branca

30 seriam cristãos, e
70 não-cristãos

89 seriam heterossexuais, e
11 homossexuais

6 pessoas possuíam 59% da riqueza de todo a aldeia,
e essas mesmas seis pessoas seriam norte-americanos

80 pessoas viveriam em condições infra-humanas, e
70 não seriam capazes de ler

50 sofriam de má-nutrição,
1 pessoa estaria a ponto de morrer,
1 bebé estaria a ponto de nascer

Só 1 pessoa teria educação universitária

Só 1 pessoa teria computador

terça-feira, março 28, 2006

Ninguém em casa


Road Trip Santiago 2006

sexta-feira, março 24, 2006

Noite

Trinca a minha alma
Crua mal passada,
Lambe três dedos de conversa
Sobremesa endiabrada.

Cheira o meu poro
Noites mal digeridas,
Rastos de braços na madeira
Pedradas nas costas erguidas.

Bom natal companheiro
Sei como irmãos somos
Na escura solidão.

Boa vida amante perdida
Sei como carne rasgada fomos
Entre ossos aflitos.

quinta-feira, março 23, 2006

Casa de partida (letra de canção)

Parem o comboio na próxima estação,
Só quero estar longe daquela que perdi,
Não interessa se não há viva alma por aqui,
Só quero sítio seguro para me despedir de ti.

Enfiado na garrafa com a alma ferida,
Vejo um homem de saída num espelho quebrado,
Começo então o caminho da casa da partida,
No dia em que te vi e jurei ter-te amado.

quarta-feira, março 22, 2006

O meu blog

Sim, é verdade que me tenho baldado para ti, meu blog, é verdade que não te tenho dado a atenção que mereces, a atenção que tencionava dar-te quando te criei, mas eu sinto o mesmo da tua parte por isso não te queixes muito.

terça-feira, março 21, 2006

O mundo às costas


Road Trip to Santiago 2006

Às vezes parece que o céu não tem estrelas, que carregamos o mundo às costas.

domingo, março 19, 2006

sexta-feira, março 17, 2006

De Que Falo Quando O Falo É Todo O Amor

aqui está um bom título para a literatura cor de rosa....

quinta-feira, março 16, 2006

Jesus And The Mary Chain



Esta foi a banda que mais vezes vi ao vivo. Lembro-me da primeira no saudoso, ou talvez nem tanto, Infante Sagres, andei dois ou três dias com um zumbido nos ouvidos tamanho foi o feed back provocado pelos irmão Reid. Logo a seguir talvez só o Nick Cave e o Iggy Pop com duas vezes cada. Ups..e os G.N.R e os Xutos e Pontapés também.

quarta-feira, março 15, 2006

Mais Uma Surpresa em Santiago


Santiago 2006

Enquanto passeava em Santiago tive uma surpresa. Confesso que já li quase tudo de Hemingway, sou um quase fã. De Gonzalo Torrenze Ballester li o "Romance de Pepe Ansurez" e o muito bom "Crónica do Rei Pasmado" que aconselho a toda a gente. A surpresa foi viverem os dois nesta casa, noutrora Hotel Suizo, a placa não diz se conviveram juntos, mas estou certo que sim, que juntos beberam algumas Estrella Galiza junto à Catedral. Cada vez que vou a Santiago tenho uma surpresa, adoro as impressões daquela cidade celta e misteriosa. Sempre me senti galego quando estou na Galiza, mais do que português em algumas zonas de Portugal.

terça-feira, março 14, 2006

A mão cansada


Santiago 2006

sexta-feira, março 10, 2006

quarta-feira, março 08, 2006

De como gosto...

De como gosto de viver do outro lado do rio,
De levar a minha filha pela marginal,
Quando os galos ensaiam o primeiro cócóró,
Um roncar gasto e aflito de anos de labor.

De como gosto de ver o Porto,
Espelhado nas águas do Douro,
É verdade Leonor, as pontes reparam em ti
Como se fosses a primeira de todo o sempre.

De como gosto da D.Luis da D.Maria da infernal Arrábida.
Das brilhantes novas pontes.
Contraste escuro da minha alma.

Isto é como gosto,
De Ti de Mim de Nós, sim, de todos Nós,
Isto é como gosto do Porto de abrigo do nosso Coração.

segunda-feira, março 06, 2006

Vian



Foi ele que me agarrou nos cabelos, atirou a minha cabeça para a parede, resgatou o meu corpo da preguiça nostálgica, quando tudo que queria era descansar por um minuto.

domingo, março 05, 2006

Instante

Aquele instante
Quando o riso é ainda promessa,
Ateando pequenas faíscas
Nos teus lábios,
É nessa milésima de tempo,
Que mergulho cego
Em mil fardos de algodão.

sábado, março 04, 2006

Amigos

Há amigos que se aconchegam na nossa carne mas que não passam de momentos, depois há amigos que estão debaixo da nossa pele e por muito que esfreguemos nunca saem e ainda bem.

domingo, fevereiro 26, 2006

sábado, fevereiro 25, 2006

1987



As coisas que se descobrem quando se muda de casa. Corria o ano de 1987, tinha motivos para sorrir. Foi o ano do calcanhar do Madjer, a mais saborosa Taça dos Campeões Europeus, é verdade, a primeira é quase sempre a melhor. Rabat Ajax, Victovik, Brondby, Dinamo de Kiev, vi esta meia-final nas bancadas das Antas, sem conseguir por os pés nos chão. No dia do Bayern fui para o palácio de cristal e vi o jogo numa mesa do café, o écran gigante afinal não funcionou. Á primeira desilusão seguiu-se um golo que fez história. Ao meu lado, o Bexigas, famoso adepto portista, viajante companheiro do 52 Aliados, deu-me um abraço que me deixou marcas nas costelas durante meses, mas quem queria saber disso para alguma coisa, voaram canecas e mesas, quando Juary marcou o segundo o café explodiu. Gente até ali estranha, beijava-se e cumprimentava-se, a Taça era de todos nós e o povo foi para a baixa. Sou do clube da minha terra, sou também do Ramaldense e do Campinas logo a seguir. Também gosto um bocadinho do Boavista, o estádio do Bessa mesmo ao lado de onde nasci e a minha avó e os meus tios que me cantavam o hino xadrez, mas isso não se pode dizer a ninguém!

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Esquinas

Gosto dos ângulos de noventa graus das esquinas e do reboliço interior que me apressa o passo até as transpor. Depois concluo resignado que não há mistério, o meu alimento vem antes da acção, a acção em sí é uma chatice. Mesmo assim não aprendo e alargo a passada até à próxima.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Leituras 9


Comprei este livro por ser o terceiro ou segundo melhor classificado numa edição que o Mil Folhas fez, onde convidou vários escritores a elegerem o melhor livro que leram em 2005. Não estou nada arrependido o livro é belo e cheio de humor. É a história de um aspirante a escritor ou exilado cultural espanhol que vive num sotão em Paris, alugado por Marguerite Duras. Recomendo a leitura de Paris É Uma Festa de Hemingway para melhor se absorver na atmosfera deste livro.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Mudei

Mudar de casa é em parte mudar de vida e ao mesmo tempo regressar a vidas já vividas. Se ou menos conseguissem imaginar as coisas que descobri enfiadas em caixotes! Cartas antigas de amores empedrados, inícios de livros e peças a que nunca ambicionei retornar, contos de juventude que de tão mal escritos, rapidamente regressam ou fundo do báu, não sem deixarem um adocicado na boca, diplomas de cursos imemoráveis, fragmentos da minha vida cheios de pó, limpos na mudança, como algumas recordações. Mas o que mais me reteve foram as fotografias. Eu de chucha na boca, eu no banho, eu de calções, eu a conduzir um carro , eu de férias, nós de amigos que já não vejo, nós do meu Amor, nós da minha família e mais recentemente, as poucas que ainda escaparam ao digital, nós da minha filha. Sentei-me no chão e perdi-me na mudança agarrado aos caixotes. Mudar é bom, mudar custa que se farta, é como o fogo de Heráclito, o devir constante, mudar é o que nos faz humanos. Mudar é como a tempestade de sábado à noite, mas é também como o por-do-sol que se lhe seguiu.

terça-feira, janeiro 24, 2006

Mudanças

O autor deste blog vai mudar de casa. Malas, caixas, discos e livros às costas. Voltarei lá para meados de Fevereiro quando a poeria tiver assentado. Até lá. Abraços.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

domingo, janeiro 22, 2006

Dia de eleições

Cavaco ganhou as eleições à primeira como os seus apoiantes desejavam, ainda assim só com 0,6% de diferença de uma segunda volta que haveria de ser renhida. Mas o que mais me assustou desta noite de presidenciais, foi o elaborado plano do primeiro-ministro, em esperar o momento de Manuel Alegre fazer a sua declaração para vingativamente fazer o seu discurso. O engenheiro agiu assim de forma fria e calculista e impediu os 20,7% de eleitores que votaram em Manuel Alegre de ouvir a declaração final do candidato, em vez, ficamos pelas desculpas esfarrapadas de que nada tem a ver com nada, de que quem vota numa coisa não vota noutra e por aí em diante. Sócrates e Cavaco vão concerteza viver felizes para sempre.

sábado, janeiro 21, 2006

Lili Marlene



"Surely the favourite song of soldiers during World War II, Lili Marleen became the unofficial anthem of the foot soldiers of both forces in the war."

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Cabaret II


Cabaret (1972)_Joel Grey, Michael York, Liza Minnelli


Cabaret (1972) _ Joel Grey


Cabaret (1972) _ Liza Minnelli, Joel Grey

quinta-feira, janeiro 19, 2006

quarta-feira, janeiro 18, 2006

O velhote (2001)

A chuva não parava e este inverno tinha sido, segundo a sua memória, o mais húmido e ventoso de sempre. Pelas botas pretas e cansadas, a água das poças entrava como num bueiro, mas comprar outras no fim da estação era um gasto extraordinário a que não se podia permitir. O seu chapéu de flanela cinzenta escura também conhecera melhores dias, assim como o sobretudo de tons igualmente escuros e já sem forro que teimava em não largar, para dar lugar ao novo, estacionado no cabide, oferecido no Natal pela filha. Apesar de tudo o velhote apresentava um aspecto harmonioso e nada desinteressado. Para isso contribuía a bengala com o cabo em forma de cabeça de pato em osso maciço, de um branco tão reluzente que, como uma pedra preciosa, equilibrava o conjunto, transmitindo a quem o via passar, a sensação de um velhote calmo aceitando o destino cruel da idade mas sem perder o seu rumo e dignidade.
Dava os seus passeios pela cidade que conhecia como a palma das mãos, isto antes de a começarem a desventrar com bulldozers e martelos hidráulicos. Agora já não acertava nas esquinas nem nos bancos dos jardins que continuavam inacessíveis. Ignorava para onde tinham levado os patos do jardim da Cordoaria, e desconhecia o paradeiro dos seus companheiros de sueca. “ Estão a abrir buracos para nos enterrar a todos”, diziam os velhotes colados à vedação, entretidos a ver o pessoal novo a trabalhar. O nosso velhote nada tinha a ver com os outros, acreditava no progresso e numa nova cidade, e tudo que saia no jornal e na televisão eram apenas encruzilhadas que mais cedo ou mais tarde se haviam de desfazer; o problema era o tempo que não lhe era favorável. Gostava de um dia ver a nova cidade.
Tudo passava rápido de mais para o seu corpo adormecido. A gente nova corria de um lado para o outro como formigas, entrando e saindo dos autocarros, atravessando as ruas fintando os carros, comprando prendas nas lojas, acendendo um cigarro apressado, engolindo refeições baratas ou tomando, de pé junto ao balcão, cafés atrás de cafés...o velhote parava, por vezes parava. Encostava-se a uma esquina e deixava o fluxo da cidade seguir o seu rumo. Quando se sentia mais dinâmico entrava na estação dos comboios e, depois de admirar os azulejos, sentava-se junto das linhas vendo as pessoas correndo atrasadas para os comboios. Quantidades intermináveis de pessoas surgiam do nada quando o apito finalmente tocava, agarradas a telemóveis, que na cabeça do velhote, eram comunicações para as pessoas amadas, crianças com as mãos fincadas nas saias das mães, assustadas com a anárquica movimentação. Passava horas sentado naquele banco de madeira verde erva, carcomido pela húmidade e facadas de juras de amor eterno. Sentado, via a cidade correr em frente aos seus olhos, compensando o seu inconveniente cansaço. Sentia apenas saudades da mocidade, pela agilidade do corpo, não por andar a correr de um lado para o outro como aquela gente, e se de alguma coisa se arrependia, era ter feito precisamente o mesmo que eles; acabou por achar que as pessoas não têm consciência que a velocidade é proporcional ao desespero, e explicava à filha: “Sempre a correr não temos tempo para apreciar nada, é como quando viajamos num comboio e pela janela apenas vemos raios de cor demarcando a paisagem,” e concluía nostálgico, “pena só me ter apercebido disso tarde de mais”.

terça-feira, janeiro 17, 2006

Black No More

Não vou voltar a ser lúgubre. A melancolia não é estatuto. Não é por andar de preto e soturno que vou parecer mais sofredor e merecedor das graças divinas do que os outros. Hoje decidi andar feliz sem tretas depressivas e pseudo intelectuais. Não vou voltar a sofrer em vão. Vou ser feliz com o que tenho, porque é isso que me alimenta.

domingo, janeiro 15, 2006

No Direction Home



O documentário de Martin Scorsese "Bob Dylan - No direction home", é no minimo muito bom (ver a série The Blues, produzida pelo mesmo realizador). A forma como Scorsese começa o documentário com um Dylan humano, cheio de falhas e contradições, a metarmorfose até a estrela mundialmente conhecida e o lento embalo que nos trás ao ponto de origem é um regalo sentimental. As entrevistas despidas de segredos de Bob Dylan são uma delícia.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

PR sofre pressão de músicos Portugueses*

A redacção do Inimigo Público teve conhecimento que o Presidente da República se prepara, devido a insuportáveis pressões exercidas pela indústria musical nacional, para condecorar uma banda portuguesa com a Ordem da Liberdade. Depois dos irlandeses U2, os artistas portugueses vieram a público mostrar a sua indignação por nenhuma banda portuguesa receber a condecoração atribuída àquele conjunto estrangeira: “Temos entre nós músicos tão ou mais solidários que os U2, porque é que só quem canta em inglês tem direito à Ordem da Liberdade?”, disse ao Inimigo Público Tozé Brito da Universal. Outras reacções não se fizeram esperar e Emanuel, reagindo a quente depois de um concerto na Rebordosa, disse a uma rádio local que a música “Os Contentores” dos Xutos & Pontapés é a canção mais solidária de sempre e que a frase “a carga pronta e metida nos contentores” é uma clara metáfora de como ajudar África. Rui Veloso, que não quis comentar, está também na corrida à apetecida condecoração, depois de pelo centésimo ano consecutivo, dar a cara pela campanha Pirilampo Mágico.
*texto que fiz para mandar para um concurso do suplemento Inimigo Público mas acabou na gaveta (leia-se disco rigído).

quarta-feira, janeiro 11, 2006

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Agradável surpresa



Quando apareceram, e até este disco, os The Strokes sempre me pareceram uma banda pré-formatada e quando assim é, fico normalmente de pé (orelha) atrás; raramente dou o braço (orelha) a torcer. Porém, todas as regras têm uma excepção, e ao ouvir este novo álbum, tive uma agradável surpresa e então a orelha aqueceu. Os The Strokes têm um som deles e no caso deste álbum um bom som.

sábado, janeiro 07, 2006

Os melhores livros que li em 2005

Indo de encontro à edição de hoje do Mil Folhas (Balanço 2005), deixo aqui os melhores livros que li em 2005. Não estão em ordem de preferência (isso não consigo fazer), e a maior parte nem são edições de 2005.


A Mancha Humana
Philip Roth
Ed. Dom Quixote

Ruído Branco
Don Dellilo
Ed. Presença

Pensei Que O Meu Pai Era Deus
Paul Auster
Ed. Asa

Memória Das Minhas Putas Tristes
Gabriel Garcia Márquez
Ed. Dom Quixote

Luz Em Agosto
William Faulkner
Diário de Notícias

O Chão Que Ela Pisa
Salman Rushdie
Ed. Dom Quixote

Alta Fidelidade
Nick Hornby
Editoria Teorema
(apesar dos clamorosos erros de tradução ou impressão)

American Buffalo
David Mamet
methuen – modern plays

Loucos Por Amor
Sam Sheppard
Relógio D´Àgua

Teatro I e II

Harold Pinter
Relógio D´Àgua

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Pois é...

..hoje casei-me.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Lobos com pele de ovelha

Nunca pensei ver e ouvir o Grândola Vila Morena num jantar a promover a candidatura de Cavaco.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Diálogo

O que fazias tu para mudar o mundo?

Sei lá, mas gostava de fazer alguma coisa.

Como por exemplo? E não me venhas com a ecologia ou a globalização, estou cansado de mais para causas perdidas.

Não deixa de ser estranho. Conseguimos imaginar ideias abstractas como a ecologia e a globalização e marcar posições claramente definidas, mas somos incapazes de por a mão a um desesperado na rua, um mendigo triste ou um velhote gasto e o principal, nunca tocamos em alguém que não faça parte das nossas relações, somos incapazes de tocar num estranho. Temos medo do contacto?

Claro que sim e é normal. Temos medo da porcaria e das doenças.

Podíamos pelo menos sorrir quando nos apetecesse?

Sorrir? Nunca sabes quem tens pela frente. Não vês as notícias?

Recebemos afectos por ondas magnéticas e circuitos integrados.

Cala-te lá com essas divagações. Afinal o que fazia para mudar o mundo?

terça-feira, janeiro 03, 2006

Canções 7 (Ziggy Stardust)


Ziggy Stardust

Não sou grande fã de Bowie. Acho que a importância que teve na música se deve mais às pessoas que redescobriu como o Lou Reed e o Iggy Pop do que propriamente às músicas que compôs. Isso não invalida um ou dois bons álbuns como o Ziggy Stardust And The Spiders From Mars. Curiosamente conheci esta canção pela mão dos Bauhaus que também me apresentaram Marc Bolan com a excelente versão da música Telegraph Sam. Como quase todas as canções que referi em posts anteriores, esta ficou para sempre comigo porque a tocava bem em guitarra. Lembro-me nas noites no Xarope em ficávamos a esvaziar o barril. Alguém resmungava quando divagava nas cordas: toca o Ziggy Stardust e deixa-te de tretas. Era Ziggy Stardust, poker, cerveja e um monstro colado na parede.