domingo, agosto 14, 2005

Fim de tarde

O velhote andava a passear pela baixa e era uma personagem como nunca tinha visto. Vestia um sobretudo preto que assentava sem dobra nos ombros mirrados. Nos pés, uns sapatos pretos com sola de couro, engraxados e polidos por mão de artista. Uma observação mais cuidada, desvendava um bigode republicano bem tratado, equilibrando a cara esguia e bicuda em forma de pêra. Cabelo ainda o tinha, pintado de negro asa de corvo, sem fio branco. Do centro do rosto, um proeminente nariz com segredos de mil e um cheiros erguia a sua haste, mas o centro nevrálgico eram as sobrancelhas, grossas e respeitosas. Encontrei-o passeando pela baixa, balouçando a bengala com um punho de prata maciça em forma de ganso e olhando com ávida curiosidade para os edifícios, ruas, pessoas e montras como se fosse a primeira vez. De vez em quando sorria, não de ninguém ou de algo em especial, eram só esgares descomprometidos e livres de complemento. Segui-o durante algum tempo, não tinha pressa para ir onde devia. Subiu em direcção à ponte e eu tive um mau pressentimento; um general que adivinhando o fim, veste a melhor farda, dá lustre às medalhas e pega na arma para um último disparo. Ia em direcção à ponte e decidi ir atrás, não fosse o meu olfacto estar correcto. Quando chegamos ao largo da Sé, duas crianças correram em direcção do velhote que as acolheu nos braços e as ergueu no ar como balões. Do bolso do sobretudo, o velhote tirou dois chupas do tamanho de antebraços. Sentei-me rindo do meu fraco nariz. O velhote acenou a uma mulher que fumava encostada a uma porta do convento, mas a resposta foi um virar de costas. Uma das crianças passou a correr bem perto de mim, soltando um grito de criança. O velhote aproximou-se da mulher mas esta deteve-o, ameaçando de nunca mais ver as crianças. Era bem mais nova, talvez fosse filha e as crianças netos. Depois olhou o relógio, chamou as crianças e desapareceram pela quelha. No miradouro da Sé, meti uma moeda no binóculo para ver a ribeira, mas o dia estava enevoado e além dos telhados das casas e dos gritos rúbeos das gaivotas, pouco mais se vislumbrava ou ouvia.

2 comentários:

guevara disse...

...e prendeste-me com este texto...

JOSE MANUEL CARVALHO disse...

Fraco olfacto mas bom coração.