quarta-feira, maio 25, 2005

Nada como chegar a casa

Andamos a ver casas há séculos. Indecisos e curtos de dinheiro, visitamos montanhas de casas em confusões de betão. Apartamentos minúsculos, casas grandes, fogões de sala, andares, terraços e garagens, acessos e metros à mistura; paredes cercadas de paredes. Ontem entramos numa pequena casa, clarabóias pelo corredor, sala grande, três quartos, um jardim. Não era cara e tinha alguns problemas é certo, um dos quais era o facto de ser do outro lado do rio. Mas podia ser aquilo o que procurávamos. Descobrimos uma pequena arrecadação ao fundo de um jardim que se erguia no ar numa anarquia verde. Entramos e descobrimos com espanto, dois grandes cestos cheios de vinil. Sorri ao pensar nas músicas que por lá deveriam andar, mas isso não foi motivo impeditivo de começar a virar lentamente as capas poeirentas. Não é pois o meu espanto, quando pego na primeira capa e dou de caras com o "Rocket To Russia", fiquei entusiasmado ao ver os Ramones, calça rota e casaco de cabedal; se algum dia existiram ídolos na minha adolescência, aqueles quatro rapazes estavam na lista. Pedi um segundo ao vendedor e comecei a virar as capas com o coração em rápido crescendo: The Stooges "Fun House", David Bowie "Ziggy Stardust", Tom Waits "Rain Dogs", a colecção completa da Blue Note... Todos esses títulos me passaram à frente, enquanto o coração não parava de bater e o vendedor intrigado me perguntava se podíamos continuara a visita. Olhei-o de soslaio. Ah não..! Aquele achado era meu e nenhum vendedor apressado me podia arrastar daquele tesouro. Funkadelic “Let´s Take It To The Stage”.
"Quando quer pelos discos?"
"Quem comprar a casa leva os discos, não posso vender nada em separado"
Nesse momento compreendi que o vendedor era bom e que talvez, talvez, tivéssemos finalmente chegado a casa.

4 comentários:

paulo oliveira disse...

pois é,tambem tu já bloggas, o que é uma surpresa; como quando era puto, naquelas tardes de nudez sem sexo depois das aulas, em que, também com surpresa dizia ao pipi da coleguinha: olha, também tu já pintas!
No fundo fazemos sempre uma festa quando nos aparece um pintelho novo.

Quanto à casa com o baú do tesouro, ela não está a pedir para ser comprada, está a pedir para ser assaltada.

Nuno Vieira disse...

Os discos são a cereja em cima do bolo, não o bolo em sí.

pintelhos novos nem sempre são motivo de festa, principalmente se não forem teus e do lugar onde aparecem.

Bárbara Vale-Frias disse...

Oh, Nuno... deixaste-me baralhada!

O post de 22 de Maio deixa transparecer o fim de uma relação... e o de 25 abre portas a uma esperança de vida a dois! Em que ficamos? ;)

Será que a cidade te deu uma 2ª oportunidade mesmo? Será que conheceste alguém naquela estação e 3 dias depois estão à procura de casa? Ou houve por aí um volte face? ;)

Bjs

Nuno Vieira disse...

o objectivo do meu blog não é ser um diário temporal, são apenas texto soltos, bocados de vida, alguns se calhar nem vividos, de diferentes alturas da minha vida.