terça-feira, fevereiro 17, 2009

A banalidade do mal

Quando ontem saí do cinema depois de ter visto “O Leitor”, uma frase martelava-me a cabeça. Kate Winsley no tribunal a ser julgada por crimes contra a humanidade dizia algo como isto: “Eu só fazia o meu trabalho, as mulheres estavam sempre a chegar e não havia lugar para todas, tínhamos de escolher algumas para ir embora”. Esse ir embora significava as suas sentenças de morte, as câmaras de gás. Este sentido de dever obstinado de estar apenas a fazer um trabalho, independente do rolo compressor que é alimentado por ele, é algo que a sociedade actual parece promover, não como é óbvio com o apagamento completo da nossa empatia face aos outros, nem mesmo banalizando o mal, mas mesmo assim demasiadamente impessoal e perigoso, executamos pequenas partes de um todo que muitas vezes não temos ideia onde acaba. É a razão que nos faz humanos, mas é também a razão em limites desproporcionais e levada ao limite lógico, como no holocausto, que alimenta o mal e o enquadra. Adolf Eichmann era um burocrata, tinha ordens explícitas de Hitler para resolver o problema da sobrelotação nos campos de concentração, então, racionalmente, ele executou as ordens, como quem passa uma factura, ou escreve uma carta a pedir material. A suposta inferioridade dos judeus não era o maior argumento para o seu extermínio, mas sim a falta de espaço e de mantimentos que tinha de ser resolvida. Os campos de concentração eram eficientes, como uma máquina produtiva, desumanamente eficientes. Era assim que as pessoas eram tratadas, como mercadorias, onde a dignidade lhes era retirada sobrando apenas o número, tatuado na carne ou impresso em documentos de remessa. Sem equiparações, recordo com este texto uma frase que ouvi no sábado à noite no documentário que passou na RTP2, Fahrenheit 9/11, de Michael Moore, onde um soldado destacado no Iraque dizia para as câmaras, algo como isto: “Eu pensava que era tipo jogo de computador, carregar em botões e pronto. Nunca imaginei que pudéssemos ver cadáveres de mulheres e crianças a apodrecer nas bermas das estradas. Isto é demais”, será que lhe passou em algum momento pela cabeça concluir com: Não ganho para isto.

1 comentário:

Claudette Guevara disse...

Obrigada pela reflexão.