sexta-feira, dezembro 19, 2008

de regresso ao campo

Um passeio depois do almoço.

S. Martinho deixou alguns presentes pelo caminho.

Travessia perigosa.



Haverá melhor maneira de comer uma laranja? Eu fiquei no quentinho junto à salamandra a beber vinho tinto e a comer castanhas.

terça-feira, dezembro 16, 2008

my tender god

A literatura e a música, quando me chegam ao coração, fazem implodir em mim um lampejo de imortalidade vedado por deus a todos os homens.

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Sofia

Mais uma nova e grande aventura se perfilha no nosso horizonte. A Sofia fez 18 semanas na barriga da mãe. Esperamos ansiosos pela nossa segunda filha (girls, girls, girls), mas quem mais a deseja é a Leonor que todos os dias pergunta se a irmã já está pronta, e tudo isto porque eu lhe disse que a irmã estava a cozinhar na barriga da mãe.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

10 livros de 2008

Balanço literário do ano de 2008:

1 - "A estrada" - Cormac McCarthy (Relógio D'Água)
2 - "Na minha morte" - William Faulkner (Dom Quixote)
3 - "Indignaçao" - Philip Roth (Dom Quixote)
4 - "Discurso do método" - René Descartes (Edições 70)
5 - "Os imigrantes" - W.G. Sebald (Teorema)
6 - "O mal de Montano" - Enrique Vila-Matas (Teorema)
7 - " O Ouro" - Blaise Cendrars (Assírio & Alvim)
8 - "Que quer dizer tudo isto? - Uma iniciação à Filosofia" - Thomas Nagel (Gradiva)
9 - "Sputnik, meu amor" - Haruki Murakami (Casa das letras)
10- "Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens" - J.J.Rousseau (Europa-América)

domingo, dezembro 07, 2008

Memória dos oitenta



The Sound - Sense Of Purpose. Uma boa memória dos anos oitenta.

sábado, dezembro 06, 2008

John Rawls

Para o comunismo ou o neo-liberalismo resultarem era necessário os homens serem justos e desprovidos de ganância, o que manifestamente não é verdade. Os senhores do mundo deveriam ler John Rawls.

"John Rawls - (1921-2002) Filósofo moral e político americano considerado o principal filósofo político do séc. XX. As ideias de Rawls inserem-se na tradição do contrato social de Locke, Rousseau e Kant. Rawls pensa que se as pessoas tiverem de escolher os princípios (ver princípio) de justiça sem saber como poderão ser por eles afectados, escolherão princípios justos. Imagina, assim, uma experiência mental em que todas as pessoas se encontram numa «posição original» sob um «véu de ignorância», isto é, em que desconhecem quais as suas aptidões, posição social, riqueza, religião e concepção de valor e de bem. Nesta situação, pensa Rawls, as pessoas chegarão por um contrato social hipotético àquilo a que chama justiça como equidade. Esta concepção de justiça é expressa por dois princípios, um que garante liberdades básicas iguais (ver liberdade) para todos – como as políticas, de expressão e reunião, de consciência e de pensamento, etc. –, e outro que estabelece que as desigualdades devem ser distribuídas de forma a beneficiarem todos e que devem decorrer de posições e funções a que todos tenham acesso. Este último princípio implica que a riqueza seja distribuída de modo a fazer com que os que estão em pior situação fiquem tão bem quanto possível. Uma sociedade justa será liberal (ver liberalismo), democrática (ver democracia) e um sistema de mercado no qual se procede à distribuição da riqueza e em que pessoas com capacidades e motivações iguais têm possibilidades iguais de sucesso, independentemente da classe social em que tenham nascido." (http://rolandoa.blogs.sapo.pt/43027.html)

sexta-feira, novembro 28, 2008

Cormac McCarthy



Fiquei a conhecer Cormac McCarhy atráves do filme dos irmãos Coeh "Este pais não é para velhos", de quem é autor do livro que lhe deu origem. Fiz umas pesquisas e cheguei até ao último livro "The Road". Sentado no sofá, li o livro muito rapidamente e sempre em estado de alerta constante. É uma viagem tenebrosa por aquela estrada, mas é uma viagem feita de um grande Amor que sobrevive apenas com o seu próprio fogo. Não é uma leitura fácil, é árido e por vezes brutalmente carnal, mostra a perversidade humana no seu estado mais animal, mas acaba com a esperança que guia o livro desde a primeira página. Nunca perdoaria o autor se o final não fosse como é, perfeito. O livro é muita coisa, mas acima de tudo é uma grande e belissíma metáfora à paternidade e aos dias que correm onde nada nos parece seguro e garantido. É a viagem do compromisso ao Amor, sem contrapartidas, que todos fazemos com os nossos pais que mais tarde vão ser os nossos filhos.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Insultos com Classe

”I am enclosing two tickets to the first night of my new play; bring a friend…. if you have one.” - George Bernard Shaw to Winston Churchill
”Cannot possibly attend first night, will attend second… if there is one.” - Winston Churchill, in response.
”He has never been known to use a word that might send a reader to the dictionary.” - William Faulkner (about Ernest Hemingway).
”Poor Faulkner. Does he really think big emotions come from big words?” - Ernest Hemingway (about William Faulkner)
Mais insultos cheios de classe, aqui:

quarta-feira, novembro 05, 2008

YES WE CAN

Depois da noite passada o futuro da humanidade não me parece tão sombrio. Grande caminhada já fizemos juntos.

sexta-feira, outubro 24, 2008

No Shit!

O antigo presidente da Reserva Federal norte-americana Alan Greenspan reconheceu ontem, numa audição no Congresso, que falhou na regulação do sistema financeiro. "Cometi um erro ao confiar que o livre mercado pode regular-se a si próprio sem a supervisão da administração", afirmou o homem que esteve 18 anos ao comando da Fed. (in público.pt).
NO SHIT!!!

sexta-feira, outubro 03, 2008

The Byrds - Turn, Turn, Turn (1965)

Uma das melhores canções pop escritas até hoje. Há 43 anos esta música estava no nr. 1 do top Billboard. Muito bom!

quarta-feira, setembro 10, 2008

The Future Is Unwritten


Um tocante documentário sobre Joe Strummer (1952-2002), antes, durante e depois dos Clash. O documentário é realizado por Julien Temple, vizinho do músico. Vários amigos de Joe sentam-se à volta de uma fogueira para falar, rir, chorar e recordar o músico, mas principalmente o homem. Arquivos das actuações dos Clash são deliciosos. Para recordar.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Teorema Versus Nick Hornby



O que se passa com a Teorema e as traduções dos livros de Nick Hornby? Já em 2005 (http://buraconaparede.blogspot.com/2005_05_05_archive.html), detectei erros ortográficos, ou melhor, faltas de atenção imperdoáveis no livro "Alta Fidelidade" deste autor. Agora foi com "Um grande Salto".

"Mas lhe podes dar o número do meu telemóvel" - pág.129
"...porque nenhum dos outros percebia nada de do assunto." - pág.196
"...dois deles a sussurrarem anedotas portas..." - pág.215
"...que gere uma empresa multinacional às noite..." - pág.223
"Não gostastes que eu dissesse que eu era teu pai..." (frase sem sentido no contexto) - pág.225
"...e eu tinha de o ajudar a na leitura." - pág.324

quinta-feira, agosto 07, 2008

O primeiro já está...venha o segundo.

Voltei aos estudos e depois do primeiro ano de Filosofia até estou orgulhoso (já há mais de dez anos que não me sentava numa sala de aulas). Média de 13,5, bem bom para quem trabalha em simultâneo. Aqui ficam as notas para o meu umbigo, em jeito de diário gráfico e para mais tarde recordar. Já agora, e antes que alguém pergunte: "Para que andas a estudar Filosofia?". A resposta está na ponta da língua e não podia ser mais óbvia: "Para ficar rico, claro!".

1º Semestre

Filosofia Antiga I - 15 ; Filosofia do Conhecimento I - 14 ; Filosofia e Ciência Política I - 13 ; Lógica I - 10 ; Metodologia da Investigação - 14

2º Semestre

Filosofia Antiga II - 15 ; Filosofia do Conhecimento II - 13 ; Filosofia e Ciência Política II - 15 ; Lógica II - 11 ; Problemática da Filosofia e da História da Filosofia - 15

sábado, julho 12, 2008

Rage Against The Machine

Estas maratonas de um dia Porto-Lisboa-Porto começam a pesar cada vez mais, mas na Quinta-feira valeu bem a pena. Vi MGMT, Gogol Bordelo, The Hives e a cereja em cima do bolo, Rage Against The Machine. Esta entrada em palco mostra a componente política dos Rage, falaram de Saramango e enquanto se esperava pelo encore...a Internacional Socialista. Political Song em carne e osso, como ela tem de ser! No fim a fila para o McDonalds tinha quilómetros...

sexta-feira, junho 13, 2008

Scarlett Johansson


Anywhere I Lay My Head, um disco de versões desta menina do cinema, musa de Woddy Allen e não só dele, permitam-me dizer. A voz faz lembrar Nico dos Velvet, naquele timbre de menina arrependida e inocente, bbbbbbbbbbrrrrrrr, arrepio na espinha. Para ouvir vezes sem fim enquanto estudo as lutas entre Platão e Protágoras. As canções são de Tom Waits, com novos e muito bem conseguidos arranjos, além disso a rapariga não fica mal na fotografia, ai não fica não.


boomp3.com

quinta-feira, maio 15, 2008

quarta-feira, maio 14, 2008

terça-feira, maio 13, 2008

Heraclito, séc. VI a.c

"Heraclito diz algures que tudo está em mudança e nada permanece parado, e, comparando o que existe à corrente de um rio, diz que não se poderia penetrar duas vezes no mesmo rio."
"A verdadeira constituição das coisas gosta de ocultar-se."
"Esta ordem do mundo (a mesma de todas), não a criou nenhum dos deuses, nem dos homens, mas sempre foi e é e será: um fogo sempre vivo, que se acende com medida e com medida se extingue."
"Não é possível descobrir os limites da alma, mesmo percorrendo todos os caminhos: tão profunda medida ela tem."
Fragmentos de Heraclito retirados de "Os filósofos pré-socráticos", Kirk e Raven

sábado, maio 10, 2008

Carta a Vila-Matas

Caro Enrique,

Andei muito indeciso nestes últimos tempos, sobre se seria uma boa ideia escrever-te esta carta ou não, mas depois pensei que ficaria extremamente arrependido se não o fizesse. Talvez possamos trocar umas ideias sobre a vida. Quem sabe tenho uma resposta tua? Pouco mais criei do que umas frases coladas no disco duro deste computador e uns post-it com ideias, pelo menos eu julgo que são ideias, espalhados pelas paredes do escritório. A única coisa que tenho a certeza, é a de ser um bom leitor, ou melhor será dizer, um leitor regular. Mas também um dia deves ter sido assim, lutando contra o desejo de escrever e a arte de calar. Hoje em dia vivo nessa aflição, neste contrabalançar que vai da tentativa ao erro, do erro à tentativa. Um dia ganho forças e sento-me em frente à folha em branco, outros dias penso em tudo para não magicar enredos mentais, penso não pensar e deixar a vontade escoar pelo ralo para puder por fim, arte das artes, preguiçar sobre a vida. Mas por muitos trilhos que o comboio percorra, volta sempre à estação de partida e este desejo de juntar palavras tornou-se mais forte do que eu. A verdade caro Enrique, espero que não te pareça presunçoso este meu à vontade, é que sempre escrevi dentro da minha cabeça, histórias mais histórias que são pontas de novelos noutras histórias desenrolando em histórias, como o Escrevedor da Tia Júlia, esse delicioso romance de Vargas-Losa, onde as personagens de vários enredos se misturam na loucura final do fazedor das novelas radiofónicas. Paul Auster escreveu no seu “Da mão para a boca”, que esteve quase a desistir de escrever, até o dia em que assistiu a um bailado e tudo lhe apareceu claro, as palavras, as frases, o enredo, tudo lhe foi revelado no meio de saltos aéreos dos dançarinos e então, só então, as histórias que escrevia mentalmente, puderam por fim ver a luz do dia. O meu conterrâneo Cardoso Pires, dizia que por vezes passava horas a lutar com uma única frase. Estes dois autores parecem-me representar os escritores do SIM, em contraponto aos teus Bartelys. Aliás, o teu "Paris não tem fim", é um bom exemplo de escritores do SIM, e dessa luta desesperante em fazer algum sentido. Lobo Antunes, outro meu nobre conterrâneo, diz que vale sempre a pena ler os clássicos para depois os pudermos plagiar inocentemente (bonito não é?). Como se acaba um romance inacabado ou como se criam personagens credíveis é um assunto sobre o qual nunca teria coragem de te perguntar e duvido mesmo da existência de uma resposta clara, senão a que descobrimos a escrever e a voltar a rescrever. Assim despeço-me, roubando uma frase tua, “Quem sou eu para escrever? E quem são os outros para me lerem?”

Sem mais nem menos,

Nuno Vieira

quarta-feira, maio 07, 2008

Vladimir Nobokov

" - Não pergunto por curiosidade - disse Cincinnatus. - É verdade que os cobardes estão sempre com perguntas. Mas garanto-lhe... Embora não consiga controlar os arrepios e o resto, isso não quer dizer nada. Um cavaleiro não é responsável pelas tremuras do seu cavalo. Quero saber porquê pela seguinte razão: a compensação de uma sentença de morte é o conhecimento da hora exacta em que se morre. É um luxo enorme, mas é um luxo que foi bem ganho. No entanto, deixam-me nesta ignorância, que é tolerável apenas para os que vivem em liberdade."
Uma citação que de um livro de Vladimir Nobokov chamado: "Convite para uma decapitação". Li o "Lolita" ainda na minha adolescência e foi um livro que me marcou, não só pelo conteúdo da narrativa mas pelo essencial da sua forma. Este "Convite para uma decapitação", tem um enredo bastante Kafkaniano, ao jeito do "Processo" ou de "América", mas como Nabokov diz no prefácio: "... eu não sabia alemão, que era completamente ignorante da literatura alemã moderna e não lera ainda nenhuma das traduções francesas ou inglesas das obras de Kafka." Nós acreditamos que Nabokov nada fica a dever a ninguém nas suas verdadeiras emoções, mas a curiosidade mantêm-se; como é possível dentro do mesmo período do tempo dois escritores, um russo, outro checoslovaco terem a mesma sensação claustrofóbica do mundo, esta sensação mesquinha de impotência e passividade exasperantes? Depois de pensar um pouco decidi que essa sensação provém do facto de serem ambos seres humanos.

sábado, abril 26, 2008

Click

Uma dedicatória especial para as fotos de Ewolman, que por vezes me fazem ligar o computador, mesmo quando chego tarde e cansado a casa. São de uma urbanidade visceral e só possível numa metrópole como Nova York.

Ewolman-Brooklyn, New York

sexta-feira, abril 25, 2008

25 de Abril Sempre


Era muito pequeno, tinha dois anitos. Lembro-me de festejar o 1 de Maio com os meus pais na Avenida da Liberdade, no ano em que tudo correu mal e a polícia agrediu jovens e velhos. Ouvi contar as manobras que o meu pai fez para não ir para ultramar lutar por uma guerra em que não acreditava. Por pouco não sou Francês de Paris de França. Tudo se resolveu e o meu pai lá seguiu para os açores onde salvo erro penou dois ou três anos. A alegria era finalmente gritada pelas ruas. Nunca a recordação do 25 de ABRIL foi tão necessária como agora, quando nos obrigam a concordar com Tratados Europeus e etc e tal, que não sabemos bem o que são. Quando nos impigem uma teoria de educação podre e minada do salve quem puder, alunos incluídos, uma precariedade no trabalho, a subjugação, a denúncia etc e tal. A liberdade é o que faz de nós homens e temos obrigação de a exigir. NÃO ME OBRIGEM A VIR PARA A RUA GRITAR!



REPREENSÃO

Depois de fuzilado
ao levar
o tiro na nuca pra acabar
chateou-se
e viu-se obrigado
a explicar
ao major
que comandava o pelotão
que o tinha fuzilado
por favor
preste atenção
e não me obrigue a repetir
a repreensão
na próxima vez
que mandar matar
dê tempo ao morto
pra gritar
convicto
um último viva a revolução.

"Contos do Gin-Tonic", Mário-Henrique Leiria

quinta-feira, abril 24, 2008

Enrique Vila-Matas (segunda parte)

(87) Fui ver a mesa redonda onde Vila-Matas na segunda-feira passada falou e sim, é verdade que fiquei na fila à espera que me autografasse um livro "O mal de Montano". Também é verdade que fiquei um pouco desiludido com a mesa redonda, pouco se falou e Enrique Vila-Matas estava com um ar abatido, pareceu-me muito cansado e talvez por isso pouco expansivo. Não fui à mesa redonda no intuito de conseguir um autógrafo, para dizer a verdade é o primeiro autógrafo que tenho num livro, isso também é normal porque a grande parte dos escritores que gosto estão mortos ou inacessíveis (esta é a excepcção à regra). Em casa tinha idealizado duas perguntas que gostava de ter feito a Enrique Vila-Matas se a mesa se prolongasse e aquece-se o suficiente, a primeira era qual o escritor que conscientemente mais o influenciou e a segunda era, quem é Paula de Parma? A mulher misteriosa, pelo menos até segunda-feira, a quem sempre dedica os livros. Quando chegou a altura de fazer as perguntas eu vacilei perante um auditório repleto de enormidades literárias e calei. Senti que tinha uma nova oportunidade de pelo menos esclarecer a segunda pergunta quando se formou uma pequena fila para autógrafos; não hesitei. Assim fiz a pergunta a Vila-Matas e ele fez-me três. Cómo te llamas? Nuno? Nuno? Descobri assim quem era Paula de Parma e, segundo o próprio me disse, não estava a inventar, isto porque à única pergunta que lhe foi feita durante a mesa, Vila-Matas respondeu dizendo que nem todas as citações que punha nos seus livros, eram totalmente das pessoas que as escreviam, muitas eram alteradas por ele de maneira a fazerem sentido no seu texto. Esta fórmula que usava tinha-lhe dado alguns problemas mas também divertimentos ao longo do tempo. O que eu nunca imaginei, era que Enrique Vila-Matas ia descobrir o meu blog e fazer um comentário. Um pequeno e generoso comentário. Se eu a partir de hoje padecer com o complexo Não, ou mesmo me transformar num móvel, ou até na Companhia de Bartleby de Melville, Vila-Matas é o culpado, um bom culpado.

domingo, abril 20, 2008

Enrique Vila-Matas

Em Chromos, com palavras parecidas às de Hoffmannsthal no seu emblemático texto do Não, a Carta de Lord Chandos (onde este renuncia à escrita porque diz que perdeu toda a faculdade de pensar ou de falar coerentemente de qualquer coisa), Felipe Alfau explica da seguinte forma a sua renúncia a continuar a escrever: "Quando se aprende inglês começam as complicações. Por muito que se tente, chega-se sempre a esta conclusão. Isto pode aplicar-se a toda a gente, aos que falam por nascimento, mas sobretudo aos latinos, espanhóis incluídos. Manifesta-se ao tornar-nos sensíveis a implicações e complexidades nas quais nunca tínhamos reparado, fazendo-se suportar o acosso da filosofia que, de qualquer modo, se intromete em tudo e, no caso dos latinos, os faz perder uma das suas características raciais: o deixar as coisas em paz, sem indignar as causas, motivos ou fins, sem intrometer-se indiscretamente em questões que não são da sua incumbência e os tornam não só inseguros mas também conscientes de assuntos que não lhes interessaram até então"

Uma citação de uma citação enigmática de um livro que ando por estes dias a ler chamado: Bartleby & Companhia do divertido e muito imaginativo escritor catalão Enrique Vila-Matas. Este escritor vai estar em Matosinhos (Galeria Municipal) na próxima Segunda-feira (dia 21) para apresentação de um novo livro e uma conferência acompanhado por Nuno Judice, José Riço Direitinho, Teresa Loo (escritora holandesa). A moderação da mesa fica a cargo de Laurinda Alves (já lhe perdoei aquilo do aborto!). Às 18h00 para quem se interessar por estas coisas que pouco interessam a ninguém. Fica aqui o link para o programa: Literatura em Viagem.

sexta-feira, abril 18, 2008

O estranho

Entrou na igreja e atravessou o corredor em direcção ao púlpito. Com passadas lentas mas pesadas fez o curto caminho. Depois subiu, os olhos presos no chão, os degraus de veludo vermelho. Parou e espreitou o horizonte como quem espera um autocarro atrasado. O tempo parou por um instante enquanto o estranho pegava ternamente na mão da noiva. O sacerdote deixou cair a bíblia mas não se ouviu o barulho da queda. O noivo tentou erguer a mão que ficou presa no ar. Os convidados, da noiva e do noivo, os acólitos, até gente curiosa que apenas rezava os pecados dos outros, congelou. Mesmo fora da igreja os carros pararam, os trabalhadores pararam com a picareta no ar e até o cão parou com a pata levantada à roda do carro. Todo o mundo tinha congelado num silêncio reverencial. Então o estranho puxou a noiva para junto dele e ambos dançaram uma valsa embalados pelo orgão que se recusou a parar. Depois separaram-se bruscamente e o estranho largou a noiva onde a tinha encontrado, saiu por onde tinha entrado e a cerimónia continuou e o mundo continuou.

domingo, abril 13, 2008

10 canções - parte 9/10



The The - This Is The Day


Esta é dedicada à POP INGLESA, à boa pop inglesa dos Violent Femmes, The Sound, Talking Heads, The Smiths, Duran Duran, Dexy's Midnight Runners, The Waterboys, The Psychedelic Furs, Simple Minds, The Cure entre muitas outras bandas. Esta música é me especial porque contém no seu âmago uma promessa de mudança, uma alteração da rotina, um novo dia, um nascer do sol, uma nova oportunidade. Fazia-me sentir bem e vivo quando a dançava em festas do verão da minha adolescência e ainda hoje sou um pouco conquistado por essa promessa e isso é tudo que me atrevo a pedir a uma música. Esta música faz parte da banda sonora da minha vida.

quinta-feira, abril 10, 2008

10 canções - parte 8/10




Tom Waits - I hope that i dont fall in love with you

Tom Waits! Que doce mistério! Tom Waits canta a vida, toda a vida, todos os pormenores de todas as vidas e quando assim é, um artista pode realmente ser chamado de artista, mas principalmente de Homem. Se eu conseguisse compor duas músicas de qualquer álbum dele, era um homem feliz com a arte e com o desejo que todos temos em alguma parte da nossa vida em expressarmos a nossa criatividade. Que estranha forma de vida, de expressão, de sentimento puro de vida. A música de Tom Waits é a música dos falhados, dos que se perderam na vida e no amor, mas talvez dizer isto seja redutor para o que aprendi nas suas letras. Quem canta a vida e morte nada teme, de nada tem medo. Para mim toda a música do século XX é representada por Tom Waits, numa altura ou outra da sua longa carreira. Primeiro estranha-se depois entranha-se como me disse alguém. Penso que é o cantor que mais fez pela música popular no século XX. Anos noventa, bem medidos! Podiam ser quase todas as músicas mas escolhi esta, do primeiro álbum (Closing Time, 1973), tinha eu um anito.

sábado, abril 05, 2008

Tri-Campeonato



Amanhã lá estarei no Dragão, com seis pontos ou não. Custa engolir a treta dos pontos vinda de uma justiça com ânsia de vingança. Custa engolir coisas como o que ouvi um "comentador" dizer na televisão, que seis pontos não compensam vinte anos. Quem não reconhece o mérito do FCP ao longo destes vintes anos não é "comentador", mas sim um escroque revoltado. Vamos para o TRI Campeão, com ou sem seis pontos, eu digo Campeão porque mesmo se o Porto perdesse todos os jogos até ao fim do campeonato ninguém conseguia chegar perto.

sexta-feira, abril 04, 2008

Martin Luther King, Jr.

De vez em quando a humanidade é abençoado por profetas, por verdadeiros Homens que não se guiam por interesses, preconceitos e parecem pairar em cima de todos nós, comuns mortais. Homens que conseguem imaginar a humanidade como uma só, sem brechas nem sofismas. Martin Luther King permanece um exemplo para a Humanidade. O vídeo é um discurso arrebatador, nem acho que vale a pena ver o Homem que o profere, é irrelevante. É o discurso mais sentido, sem cábulas, porque está tudo lá, a luz, a humanidade, a partida e a chegada, nem sequer é preciso ler nas entrelinhas, porque não tem entrelinhas. O futuro da humanidade não pode andar muito longe destas palavras sábias. Os filhos de Martin Luther King, são os meus filhos também. "I have a dream that my four childrens will one day live in a nation (WORLD) where they will not be judge by the color of there skin (BY NO APPEARANCE) but by the content of their character". Faz hoje quarenta anos que um cobarde seco de esperança como um cadáver ao sol, matou Martin Luther King. Aprendemos alguma coisa?

http://youtube.com/watch?v=IWTKZLKWYHE (Não consegui incluir o vídeo e depois de muita luta com o HTML, achei melhor deixar aqui o endereço)

quarta-feira, abril 02, 2008

10 canções - parte 7/10



The Velvet Underground - Rock N Roll


Conheci os Velvet Underground talvez na década de oitenta, um álbum intitulado VU mas só lhes prestei atenção passados uns bons seis ou sete anos. A capa da banana, do Andy Warhol, o primeiro disco dos Velvet, apareceu-me um dia enquanto pesquisava uns discos usados numa loja da baixa da cidade. Fechei os olhos e pensei que se toda a gente me falava dos Velvet eles certamente tinham alguma coisa de interessante e, como todas as coisas boas não são facilmente perceptiveis ao primeiro contacto, mas necessitam de ser amadurecidas, decidi levar. Dois anos mais tarde já conhecia tudo que haviam para conhecer dos Velvet, do John Cale e do Lou Reed de quem sou fã incondicional (tenho de mencionar o álbum Transformers do Lou Reed de 1972, que na minha opnião é um grande disco de rock ´n´roll). Os Velvet Underground foram um cometa que passou e deixou o seu rasto de luz espalhado no universo da música. Se prestarmos atenção, podemos ainda ouvi-los, em centenas de bandas recentes. Fica aqui aqui o Rock ´n´Roll, mas podiam ficar outras canções (Pale Blues Eyes, I´ll Be Your Mirror, Sweet Jane, Heroin, After Hours), esta é talvez a que mais me marcou porque tocava uma versão numa banda que tive com uns amigos. Hasta!

domingo, março 30, 2008

Blaise Cendrars, Aventureiro e Escritor

Lendo o "Os livros da minha vida" de Henry Miller, encontrei da parte do escritor, uma grande e incondicional admiração por Blaise Cendrars de quem nunca tinha ouvido falar. Como sou um grande admirador da obra de Miller, fui à procura de Blaise Cendrars. Já sabia muito sobre este autor depois de ler as trinta páginas que Miller lhe dedica em "Os livros...", mas precisava de confirmar lendo a obra. Comprei "O Ouro", publicado pela Assírio & Alvim, com tradução de António Mega Ferreira, e que escreve assim no prefácio de quem também é autor: "O que fascinava Cendrars na história de Johann August Suter não era de ordem diferente daquilo que pode fascinar o mais comum dos mortais: como, por um golpe de vontade, se constrói uma fortuna; e como, por um golpe de azar, se perde a fortuna, por causa de uma fortuna ainda maior. Em meia dúzia de anos, Suter, o homem que atravessara a pé a fronteira entre a Suiça e a França, crivado de dívidas e fugido aos credores, cruzou o continente americano e ancorou na Califórnia, em vastos territórios inexpugnáveis, que, com sentido de organização e disciplina, começou a colonizar. Enriqueceu num instante, o tempo que leva Cendrars a escrever duas ou três páginas." Miller fala assim das personagens de Cendrars: "...é raro vermo-lo emitir julgamentos em relação aos outros. O que se nos depara é que, ao pôr a nu as fraquezas ou as faltas das suas personagens, ele está a revelar, ou a esforçar-se por revelar, a sua natureza heróica essencial. Todas as diferentes figuras - humanas, todas elas demasiadamente humanas - que povoam os seus livros são glorificadas no seu ser básico, intrínseco." Espero ter-vos aberto a curiosidade, eu por mim li o "O Ouro" numa noite de insónias, ontem, como era costume acontecer a Cendrars.

sexta-feira, março 28, 2008

10 canções - parte 6/10


Pixies - Gigantic


A banda que me salvou a vida. Não literalmente claro, mas que me ajudou a perceber que o rock ´n´roll não estava morto. Anos noventa parece-me, mas não posso ter a certeza absoluta desse facto. O que posso ter a certeza absoluta é que os Pixies apareceram com o álbum Surfer Rosa (1988) quando já ninguém esperava por eles, e com isso, ajudaram na pós-revolução que segurou o rock, não o deixando desfalecer em lenta agonia, inflamando-o de ar fresco e puro que se prolongou talvez, até ao Nevermind dos Nirvana. Os Pixies são, e confesso agora e talvez nunca mais, a minha banda preferida de todos os tempos; se disserem que eu disse isto, eu desminto categoricamente. Escolhi esta música porque é cantada pela Kim Deal, desculpa Black Francis, eras tu ou o Lou Reed. Eu explico. Aqui a escolha está ligada ao facto doloroso de a próxima música nesta lista, não ser a Nico, dos Velvet Underground a cantar "I´ll Be Your Mirror", mas tinha de misturar a sedução feminina neste enredo, sem a vossa suavidade e encanto todas estas as listas ficam amputadas. A verdade, é que podia ter escolhido uma dezena de músicas dos Pixies, enfim todas.

quinta-feira, março 27, 2008

Pequim 2008


Decidi boicotar os jogos olimpícos em Pequim. Vou dentro do possível ignorar as centenas de modalidades desportivas que tanto prazer me dão ver. Vou ignorar a abertura e o fecho. Vou fazer este esforço em nome da humanidade do século XXI, da minha filha e de toda a massa de gente que é continuamente explorada em nome de um capitalismo selvagem de fazer inveja aos mais dilerantes inventores desse sistema económico. Pela selvagaria chinesa que dura há anos Tibete, pela ausência de liberdade de expressão, pelas réstias mais ignóbeis do comunismo. Se existissem homens com amor pela vida, com respeito profundo pela humanidade a comandar países, então concerteza esses países recusavam este show-off e abandonariam com certeza os jogos. Está na hora e a hora é agora.

quarta-feira, março 26, 2008

Henry Miller, 1952

Uma citação que me chamou a atenção, num livro que ando por estes dias a ler.
"Nesta época, em que se acredita existir um atalho para tudo, a maior lição a aprender é que o caminho mais difícil é, a longo prazo, o mais fácil. Tudo o que nos é apresentado nos livros, tudo o que parece tão terrivelmente vital e significativo, não passa de uma parcela ínfima daquilo que lhe deu origem e que está ao alcance de toda a gente. Toda a nossa teoria educacional se baseia na ideia absurda de que devemos aprender a nadar em terra antes de nos atirarmos à água. Isto aplica-se ao estudo das artes, bem como à busca do conhecimento. O homem continua a ser ensinado a criar estudando obras de outros homens ou fazendo planos e esboços que não estão destinados a materializar-se. A arte da escrita é ensinada na sala de aulas em vez de ser no âmago da vida. Os estudantes continuam a receber modelos que, supostamente, se devem adaptar a todos os tipos de inteligêngia. Não é de estranhar que produzamos melhores engenheiros do que escritores, melhores peritos industriais do que pintores."
Henry Miller no prefácio de "Os Livros Da Minha Vida" - Antígona

terça-feira, março 25, 2008

10 canções - parte 5/10


U2 - Running to Stand Still


Não tenho a certeza se foi o álbum Boy de 1980, ou o War de 1983 o primeiro que conheci destes irlandeses que não precisam de apresentação, mas parece-me que essa informação não é importante, até porque a música que escolhi, depois de muito matutar, não é de nenhum deles, mas podia muito bem ser, como por exemplo I Will Follow ou New Year´s Day. As datas podem não ser as mais exactas e nem são assim tão relevantes, mas ainda estamos na década de oitenta. O meu melhor amigo tinha um irmão mais velho que tinha algumas pérolas em vinil entre as quais dois ou três álbúns dos U2, e mais algumas coisas muito apetíveis à nossa curiosidade juvenil. Passávamos algumas tardes a ouvir os discos às escondidas do irmão, e assim a minha dedicação pelos U2 foi-se cimentando pouco a pouco. Um dia arranjei coragem e lá pedi ao irmão mais velho, para me gravar uma cassete com os U2, mas não foi uma cassete normal, foi uma TDK Ferro de 90 minutos, virgem, uma preciosidade cravada aos pais. Na mesma altura e com o mesmo amigo, passávamos tardes a jogar Subbuteo e a ouvir em directo ou gravado (ainda tenho algumas dessas gravações) o programa de António Sérgio "Som da Frente" (agora quando ouço a sua voz em anúncios lembro-me sempre dessas tardes). Era a altura dos tele-discos, dos programas como o Countdown, numa época que a MTV (graças a deus), era ainda uma miragem. Echo And The Bunnymen e Joy Division são outras bandas que me ficaram desses tempos. Escolhi uma música do álbum Joshua Tree de 1987, porque nessa altura andava a aprender a tocar guitarra e esta música só tinha três acordes mas muita emoção, um lento crescendo ritmico que acompanha a letra como poucas vezes ouvi (Heroin dos Velvet é muito semelhante neste crescendo ritmo/letra. As notas são as mesmas). Centenas de vezes devo ter tocado e cantado esta música sozinho no quarto, até que me afeiçoei definitivamente a ela.

sábado, março 22, 2008

10 canções - parte 4/10



Ramones - Do You Remember Rock´n´Roll Radio

Os Ramones são do tempo das rádios piratas aqui no Porto, como a Rádio Caos (93.4 MHz) na Praça da República ou da Rádio Cultura (90.0 Mhz) no Marquês. Existia um programa, emitido pela Caos, todos os fins de tarde, que tinha como genérico a música dos Ramones, Do You Remember Rock ´n´Roll Radio. Cheguei nessa altura, com um amigo mais velho, a fazer alguns programas na Caos (tinhamos praticamente de pagar para manter o programa). Durante essas sessões fiquei a conhecer mais bandas do que até então. Aliás nunca tinha visto tantos discos juntos em toda a minha vida. Joy Division, Durutti Column, Echo And The Bunnymen, Killing Joke, U2, Cabaret Voltaire, Devo, The Fall, The Sonics, The Who, Bauhaus, entre muitas outras bandas que explodiam numa Inglaterra infestada pelo liberalismo de Thatcher e do pós-punk. Os Ramones são americanos mas marcam a minha passagem entre o punk e o pós-punk, a viragem para outro tipo de som, outras letras, outras músicas, o percurso até ai feito de dentro para fora, começou a fazer-se no sentido inverso. A quarta música é o Do You Remember Rock ´n´ Roll Radio para dançarem ai em casa, eu vou concerteza.

sexta-feira, março 21, 2008

10 canções - parte 3/10

Bruce Springsteen - Thunder Road

Seria muito injusto não referir a paixão que senti pelas músicas do Bruce Springsteen. Quase ao mesmo tempo do punk, aqui a ordem cronológica pode não ser a exacta, andei a coleccionar discos do Boss. A América fascinava-me na altura, ainda me fascina agora, e nada melhor do que as letras dos primeiros álbuns do Springsteen para sorver um pouco dessa terra tão distante e cheia de mistérios. Conheci a sua música quando foi lançado o mega-super estrondoso e lider de tops de vendas, Born In The U.S.A (1986), mas os discos antes desse são mais carne e sangue, mais sentimento, mais reais, mais a América desconhecida dos desalentos e terras prometidas. As auto-estradas que cruzam terriolas perdidas são a última salvação para quem quer fugir do vazio e partir atrás do sonho. Amores desavindos, filhos não programados, pessoas desempregadas e casas com hipotecas demasiado caras, gente que perde o norte e invariavelmente parte, gente como a gente realmente é. Curiosamente, ou não, foi através de pesquisas sobre o Springsteen que fiquei a conhecer escritores como Jack Kerouac e Jack London, cinestras como Coppola e os irmãos Coen e músicos como Elvis Costelo e Tom Waits, estavam os três num disco que comprei em homenagem a Roy Orbinson, chamado Roy Orbinson and Friends. O que sei sobre a América tem as suas raizes na música de Springsteen e se existe alguma canção que melhor junta as facetas da sua música é Thunder Road (1975), que fica aqui como a terceira música. Uma justa referência ao álbum Nebraska (1982), todo ele acústico e o único que ainda ouço com prazer hoje em dia.

quinta-feira, março 20, 2008

10 canções - parte 2/10


Tha Clash - Spanish Bombs

Fins dos anos oitenta, o punk já tinha estalado há muito tempo em Inglaterra, mas em Portugal estava no auge, para mim claro. Foi em casa de um amigo meu que ouvi o London Calling dos Clash pela primeira vez. Apesar de ele estar sempre a ouvir a música que intitula o álbum, eu sempre preferi o Spanish Bomb. Se tenho de fazer uma lista, tenho de incluir o Spanish Bomb. Mas para incluir esta música como icón daquele época, tenho também de falar certamente de músicas dos Sex Pistols, dos Ramones, dos Television, dos Buzzcoks, da Patti Smith, dos Dead Kennedys e de outros tantos. Esta é segunda canção mas a terceira deve certamente sair da lista de bandas que mencionei em cima.

quarta-feira, março 19, 2008

10 canções - parte 1/10


Sérgio Godinho - Com Um Brilhozinho Nos Olhos

Hoje acordei de sonhos inquietantes. Um sonho não termina quando acordamos, mas que se prolonga pelo resto do dia como uma pulga que teima em ser descoberta. Neste sonho pediram-me para escolher as dez melhores canções de sempre e os dez melhores livros de sempre. Acordei com suores frios e tremoras mas, apesar de tudo não passar de um enorme pesadelo, vi-me na obrigação de levar a cabo tão assustadora tarefa. Passei o dia a remoer nas músicas que me tinham marcado e decidi começar pela mais tenra idade. Recuei no tempo, recuei tanto que acabei a remexer em velhas caixas cheias de pó e cassetes baforentas até descobrir, bem lá no fundo, uma gravação de 1975, feita com os meus tios. Na fita negra esta gravado uma pequena voz cantando, Grrrrrandola Bela Morrrrrena. Em música de fundo ouviam-se as palmas da família babada. Deveria o Grandola Vila Morena a primeira desta lista? E o Com Um Brilhozinho nos Olhos do Sérgio Godinho já lá para os oitentas? A primeira música que soube cantar do princípio ao fim? E a Balada da Rita e o Antes no Poço da Morte? Gosto muito da música do Zeca, mas já não bateu forte para quem nasceu em 72, apesar de nunca ser tarde demais. A primeira música vai para o Sérgio Godinho, chama-se Com um Brilhozinho nos Olhos (É que hoje fiz um amigo e coisa mais preciosa no mundo não há), e engloba a Balada da Rita, Antes do Poço da Morte e Grandola Vila Morena do Zeca Afonso. Já agora uma menção honrosa para o Bairro do Amor do Jorge Palma, praticamente da mesma altura, mas descoberta bem mais tarde. A partir daqui as escolhas tendem a ficar mais nebulosas.

terça-feira, março 18, 2008

The Black Keys

The Black Keys são uma banda de blues-rock composta por Daniel Auerbach (voz e guitarra) e Patrick Carney (bateria), de Akron, Ohio. Conheço bem o álbum Rubber Factory, o primeiro que ouvi e que ainda hoje me parece o mais conseguido e nunca mais deixei de lhes seguir os passos. Attack & Release lançado este ano, trás boas recordações e é de ouvir com atenção. A designação blues-rock não é inocente já que considero que a mescla que eles conseguem entre dois géneros é assinalável, muito inteligente e sensível. A técnica de Slide, que consiste em deslizar um pequeno tubo oco sobre as cordas eléctricas, trás à lembrança as paisagens de Ray Cooder e mais recentemente Ben Harper. Deixo aqui uma música de Rubber Factory.
Discografia completa

The Big Come Up (2002)
Thickfreakness (2003)
Rubber Factory (2004)
Magic Potion (2006)
Attack & Release (2008)


The Black Keys_the lengths

domingo, março 16, 2008

Amy Winehouse & Joss Stone

Em que estas duas cantoras se assemelham? Primeiro as divinas vozes de ambas e um conjunto de boas e algumas excelentes músicas. Em segundo, o facto se serem ambas Inglesas e não Norte-Americanas. Estranho? Talvez não. O facto de serem ambas brancas a cantar músicas com raízes negras, como o Blues? Estranho? Claro que não, os Rolling Stones fizeram isso nos anos sessenta. E quais são então as diferenças além das óbvias? Lembram-se da polémica sobre Joss Stone quando se falou de como era possível uma rapariguinha de 18 anitos, protegida da aspereza da vida por uma educação cuidada, proveniente dos subúrbios de Londres, e que saltou para o estrelato numa espécie de “Chuva das Estrelas” made in England, ter uma voz comparável a Aretha Franklin, a diva Americana que tinha sofrido nos becos urbanos a agrestes desventuras emocionais? Uma voz que toda a gente sabia cantar a dor e a tristeza de uma vida vivida e dolorosa? Não, não era possível! Como podia ser possível?

Porque que é que o público americano prestou mais reverência e entusiasmo a Amy? Porque ela é aquilo que uma cantora de blues tem de ser. Aquele redemoinho anárquico que gira na vida privada de Amy, é o que todos queremos ver. As drogas, o álcool, namorado na prisão, clínicas de reabilitação todos os meses. Ela sim tem o direito para cantar os Blues. Terá? Ela sofre o suficiente para a sua voz conter a angústia dos Blues. Sofrerá?

Quem tem direito a quê? Parece-me, de facto, e dou o braço a torcer, que sinto mais a rua, o sangue e a ruína emocional na voz de Amy, do que na de Joss Stone. Serão as letras das músicas? Será impressão? Será indução? Quem sabe? Talvez não seja realmente possível uma miúda sem calos ter a mesma voz de Aretha Franklin. E Amy será uma miúda mimada? Existe sempre qualquer coisa, qualquer coisa que vem de dentro, mas de tão dentro que é impossível imitar. Talvez nada disto tenha importância alguma para quem ouve com prazer a música de ambas. Mas a história, esse rolo compressor, dirá de sua justiça daqui a quase nada.

sábado, março 15, 2008

Sam Shepard

Foi em 1943 que Sam Shepard nasceu. O seu pai era piloto da força aérea e os anos em que passou perseguindo o pai de base para base causaram-lhe forte impressão, senão os temas para as suas primeiras peças dramáticas: "Eu sinto que nunca tive uma casa, compreendem? Sinto-me ligado a este pais, mas nunca sei exactamente onde pertenço...Existe sempre este nostalgia por um lugar, um lugar onde consiga encontrar-me comigo mesmo."
Estes dados biográficos de Sam Shepard, retirados de http://www.todayinliterature.com/biography/sam.shepard.asp#top, são exactamente as sensações que retiro quando leio as suas peças ou os seus contos, uma permanente procura de algo que teima em nunca chegar, as corridas infernais, mesmo dentro de um pequeno espaço, nas peças de teatro, ou em planícies a perder de vista, com rancheiros, cowboys e gente deslocada no espaço e no tempo, como primordialmente acontece nos seus contos, são fruto desta ausência de sentido de pertença muito vincado na obra de Shepard. Para quem quiser conhecer um pouco da obra deste autor sugiro estas obras.
Crónicas Americanas (Motel Chronicles), da Difel, revela o mundo vertiginoso e por vezes surpreendente do homem, por detrás das peças que tornaram Sam Shepard uma lenda viva do teatro contemporâneo. Shepard escreve neste livro pequenas crónicas autobiográficas – o nascimento em Illinois, memórias da infância na base militar de Guam, em Pasadena e na Califórnia do Sul, as suas aventuras como rancheiro, criado de mesa, músico de rock, dramaturgo e actor de cinema.Muitos temas deste livro estão na base da peça Superstitions e de Paris, Texas, o filme de Wim Wenders de cujo argumento é autor e que, em 1984, recebeu a Palma de Ouro do Festival de Cannes.
Loucos por Amor (Fool For Love), da Relógio D'Água é uma peça teatral que contém algumas das histórias mais intensas e comoventes que Sam Shepard escreveu. Shepard cria dois personagens, May e Eddie, enredados na força de um desejo que não pode ser satisfeito.

sexta-feira, março 14, 2008

Raymond Carver


Raymond Carver nasceu em 1938, no seio de uma família muito pobre. Empregou-se numa serração de madeira e, aos 19 anos, casou. Para sustentar a família foi porteiro de um hospital, vendedor de enciclopédias, motorista de pesados, empregado numa bomba de gasolina, etc.., conseguindo, porém, tempo para frequentar um curso de "escrita criativa". Após vários dramas provocados pelo seu alcoolismo, a mulher deixou-o definitivamente em 1977. Conheceu a poetisa Tess Galagher, com quem partilhou os últimos onze anos da sua vida. "Queres fazer o favor de te calares?" (Teorema, 1989), "De que falamos quando falamos de Amor" (Teorema, 1987) e "Catedral" (Teorema, 1983), são os livros de contos mais conhecidos entre nós. Infelizmente, já não conseguiu vir a Lisboa, onde o esperávamos em Outubro de 1988. A morte prematura, em consequência de um cancro, levou-o a 2 de Agosto de 1988.

Um dos contistas norte-americanos que realmente me ficou na alma. Muitas passagens dos seus textos aparecem na minha cabeça sem serem convidados e em ocasiões estranhas e inoportunas. Raymond Carver não é fácil, pelo contrário é chato, é provocante, é intrigante mas quem quiser ler para não ficar como estava, os contos de Raymond Carver contém a promessa de não deixar ninguém emocionalmente ileso.

quinta-feira, março 13, 2008

Times They Are A Changing

Já não te falo há muito tempo, nem sei ao certo porque aqui estou novamente contigo. Talvez porque hoje vi um filme, um delicioso filme, apeteceu-me chorar, vi-me a mim mesmo desfeito em lágrimas, mas acho que interiorizei que isso não é coisa de pessoas feitas e gordas. Agora gostava de ter chorado, só para ir contra essa estúpida premissa. Dois anos sem aqui passar. Nesta ausência muitas coisas aconteceram, muitas ficaram por acontecer e muitas desejámos fazer acontecer, mas tu sabes, o ritmo impede devaneios e tudo nos impele ao caminho recto sem sobressaltos, mas como eu adoro curvas, tropeções e todos esses actos egoístas que me fazem cair para depois me puder levantar outra vez. Renascer! Mudar de casa, mudar duas ou três vezes de emprego por ano, saltos mortais em profissões, piruetas no futuro incerto mas sedutor! Vontade de rir, tu já reparaste como nos tentam castrar lançando para o ar palavras gélidas como empreendedor, sucesso, investimento, economia, e impigem todas as sílabas como se tirassem um coelho da cartola? Se insistirmos nisso os chineses arrebentam com tudo, no mais execrável pesadelo da guerra fria, no pior dos dois lados. Mas para que te falo disto tudo? O que eu queria dizer é que hoje é o fim do egoísmo, a minha filha cresceu, devias vê-la a brincar no chão da sala com legos e bonecos azuis. Salta de sofá em sofá com se fosse vento e não me deixa parar. Eu agarro-a quando cai desvairada e respiro sem pensar. Tento não deixá-la muito tempo em frente à televisão, mas o que é que um pai pode fazer?

domingo, fevereiro 10, 2008

Passado um ano

Passado um ano pensei em dar aqui uma saltadinha. Só para cumprimentar velhos amigos. Olá como estão? Este ano foi fértil em mudanças na minha vida, novas músicas, novas leituras, estudos (voltei à escola, quem diria !!!). Para já o que eu gostava era conseguir voltar a escrever aqui com alguma regularidade. Vamos lá ver se consigo. Um abraço e até jazz.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Claro que SIM que claro!

quinta-feira, outubro 12, 2006

Canções 11



Sobre Tom Waits já disse tudo num post de 31 de Março (Canções 8), só não tinha ainda descoberto o YouTube nessa altura.
Video realizado por Jim Jarmusch.

terça-feira, outubro 10, 2006

Diário de viagens fictícias

Esta é uma cidade na foz de um rio escuro e esguio que abriu montanhas em dois à sua passagem, cravou braços nas margens e não parou senão perante o grande e interminável oceano que o acolhe com tumultuosas e indispostas ondas de espuma, apesar dos séculos, o rio será sempre um intruso. Mas se o rio se força no mar, não é menos verdade que a água salgada entra no caudal doce até quase trinta quilómetros no interior da terra quente. De uma colina alta junto à foz, observa-se a cidade a descer, trapalhona, até ao rio, ou melhor será dizer, a subir a partir do rio, porque são as margens, o ponto originário da evolução deste burgo, apesar de ao primeiro contacto visual, parecer que a cidade caíu do alto da montanha até ao rio, numa avalanche de telhas, cimento, janelas empedradas e animais aflitos.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Parabéns eu



Quando a tua morte se entrelaçou no meu nascimento, foi quando mais reparei em ti. Pensei neste dia que desapareceste e eu nasci, fazer-te uma pequena homenagem, nada de esfinges, tu sabes como detesto regressados, só uma coisa simples. Depois pensei que homenagens já tens bastantes e talvez o melhor seja pedir-te, não uma benção, antes uma direcção, um caminho seguro onde a tua voz guie os meus passos através da bruma dos dias, não me deixando impune. Não leves a mal a minha intenção é pura.

sábado, setembro 16, 2006

Arqui-inimigo



O meu arqui-inimigo pensa em coisas que não lembra às mais terriveis mentes. Tem pensamentos dementes e podres de insanidade. O meu arqui-inimigo tem o mesmo nome do que eu mas não sou eu, veste um corpo igual ao meu mas que não é o meu. É o diabo no meu ombro esquerdo, o sangue nas minhas veias. Tem super poderes e usa-os quando me deixo vencer, como a preguiça, a presunção e por vezes atira palavras pela minha boca que não tive sequer tempo de assimilar. O meu arqui-inimigo é forte, mas vou ganhando, às vezes perdendo batalhas, mas contra o amor e a razão, os meus super poderes mais fortes, ele fraqueza e desaparece, para novamente reaparecer. Nunca vou conseguir matá-lo, ele é eu, eu sou ele.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Leituras 11


Não gostei tanto como "Os nomes", mas não deixa de ser mais um romance conseguido por Don Delillo, este do ano de 1991. Convém reter uma frase deste livro, que nada tem de especial, mas, e depois de três dias de documentários sobre o 11 de Setembro (até sonhei com aquilo), achei interessante transcrever.
" Da janela virada a sul avistavam-se, recortadas na noite, as torres do World Trace Center, extremamente proximas e densas. Nelas, a palavra "ameaça" surgia em toda a extensão, toda a iminência da sua força."

terça-feira, setembro 12, 2006

Parte do que sou...



...anda algures entre estes livros e discos,
esquecido e espalhado nestas estantes,
ou,
finalmente arrumei o meu canto.

segunda-feira, setembro 11, 2006

quinta-feira, setembro 07, 2006

Morto no deserto



Não se consegue ver mas eu digo o que está ali escrito: 07/09/2006, na categoria Teatro no Porto, não foram encontradas ocorrências que satisfaçam a sua pesquisa. Finalmente a politica do nosso presidente de câmara está a dar frutos.

Pearl Jam



Tinha prometido a mim mesmo nunca mais ir a LIsboa ver um concerto e voltar no mesmo dia, mas foi mais forte do que eu. Ainda bem que faltei à promessa, os Pearl Jam deram um concerto memorável. Eddie Vedder falou bastante em português, principalmente para elogiar as ondas do nosso litoral. Cantou-se em coro as músicas mais antigas, fizeram dois encores para tocarem uma versão dos RAMONES em homenagem a Joey Ramone e o já habitual "Keep on rocking on the free world" de Neil Young. Valeu!

sexta-feira, setembro 01, 2006

Canções 10

VELVET UNDERGROUND

Heroin

Mais um murro no estômago. Ouvi esta canção em casa de um amigo da secundária, corriam os anos oitenta. Apesar dos rasgados elogios que ele fez aos Velvet Underground eu não vi na altura a importância do que estava a ouvir. Alguns anos mais tarde e depois de muita outra gente me ter falado nos Velvet, eu decidi entender. Comprei o álbum da banana e descobri em domino a Factory, Andy Warhol e os seus filmes ultra realistas. Descobri Lou Reed, porventura o meu maior formador musical. A heroína, essa malfadada, descobri-a nas ruas de outras maneiras e quando tal aconteceu, a canção de Lou Reed começou a fazer sentido.

quinta-feira, agosto 31, 2006

Em memória de Pat



Vou escrever uma pequena história sobre esta tocante notícia publicada pelo Jornal de Letras, é imperativo, é fundamental para mim entrar dentro de uma mente sem memória, porque também sinto e imagino muitas vezes a sensação de ausência, de algo misterioso e encoberto pelo véu do passado que vagueia furtivo em mim.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Intercéltico Sendim 2006



Um festival diferente que não move massas. A maior parte das bandas eram espanholas e muito interessantes, de resto foi boa comida, sol, mergulhos no rio douro e bom ambiente. Pena ser tão longe, e daí, ainda bem que é longe.

terça-feira, julho 11, 2006

Amanhã seria diferente

És para mim um lobo negro que corre entre ervas altas olhos vermelhos do inferno que sentes e os dentes, reluzentes, no branco da lua cheia. Corres atrás de mim com uma fome canina perseguindo na bruma, na tumba, rumba. Finalmente alcanças-me e tudo que fazes é lamber-me as mãos, como um rafeiro abandonado, enfadado, regalado, rebolas a meus pés.

quarta-feira, julho 05, 2006

Estou triste é certo, mas não assim tão triste

"Uma das coisas de que me ocupo neste livro, e que, aliás, venho perseguindo desde sempre, é a questão da identidade. (...) A grande possibilidade de sermos felizes é poder construir e reconstruir identidades múltiplas ao longo da vida"


MIA COUTO "Jornal de Letras" de 10 de Maio.

sábado, junho 10, 2006

Sexta

Este mundo não é nosso,
Eu sei irmão abraço,
Agarra-me nesta injecção que nos dão,
A cura da nossa inquietação.

Estão fartos os meus irmãos,
Nossa loucura não é a deles,
Corrupio, devaneio, aguerrido,
Não são flores não,
É só vil,
Porcas folhas de papel
Tua paixão queremos paixão,
A carne solta do corpo
Amor a desbotar rebentar.

Estão fartos meus irmãos,
Do vil como eu.
Eu farto estarei também.
Sempre em vós respirarei.
Aconchego.
Sempre.
Vos procurareis.

quarta-feira, maio 31, 2006

Um Mal Menor

Tudo começou por um insignificante murmúrio, um pequeno zumbido ruminando na testa. Depois passou para tonturas e por fim o desmaio que culminou na passagem pelo hospital. “Tem pouca glicose, precisa descansar, as tensões muito baixas, análises a isto e àquilo”, tudo misturado com conselhos médicos e olhares para os ponteiros, disfarçados do relógio. Andam no ar, as palavras como roldanas formando perfeitos e científicos mecanismos. Eu muito longe dali, a brincar com a Joana na varanda da minha avó, soprando bolas de sabão ao vento. “Mais açúcar, precisa de mais açúcar para equilibrar o organismo”. Se lhe explicasse o que sentia encolhia os ombros, mesmo assim, abriria o grande livro das doenças e desequilíbrios gerais para nada encontrar. “ Para o seu mal não existe cura, caro amigo”, diria resignado. ”Mas tenho um médico meu amigo que estuda casos assim...”, e pousaria na minha mão um cartão dourado. Obrigado vou indo, já me chega a vizinha do lado, e a gata com cio, largando gemidos do terceiro andar. Já me chega a chuva, a merda da chuva corroendo os passeios encharcando as roupas enegrecendo o coração, sim senhor doutor, a porca da chuva que teima em não amainar por mais que eu dance em círculos. É aqui que volto a Joana, debruçada na varanda, a soprar ao vento grandes e redondos balões de sabão.

sábado, maio 27, 2006

Ainda sou do tempo...





... do Café Luso, onde se faziam tertúlias intermináveis pela noite dentro. Deste Rés do Chão e da gente nocturna de toda a espécie que por ali se sentava. Do cheiro a haxixe entre as mesas e dos saudosos príncipes, a cerveja de pressão que fez história na cidade.

segunda-feira, maio 22, 2006

...e passou um ano.

Este blog faz hoje um ano. Nesta parede que é a minha vida, muitos amigos espreitaram pelo buraco e por aqui andaram e comentaram. Esses amigos estão todos aqui ao lado, onde espreito também. Comecei com um conto chamado Redenção, sem saber que a redenção foi o verdadeiro móbil deste blog, este despejar de coisas por vezes inúteis que nos sobrecarregam a alma. Desde de 22 de Maio do ano passado, muitas coisas aconteceram. Tive uma filha, casei, tive desempregado, desarranjei emprego e voltei a desarranjar. Mudei de casa, comprei uma casa. Sofri como em todos os anos mas sorri muito também, que a vida mais não é do que momentos roubados à rotina. Nestes últimos dois meses pouco tempo aqui passei e nem para dar uma espreitadela aos amigos arranjo um minuto. Hoje saio de casa às 8 da manhã e só volto às 8 da noite. Por aqui me vou arrastando mesmo assim. Comecei um novo blog, onossocalao.blogspot.com, onde rapidamente coloco algum calão que coleccionei ao longo dos anos e pouco mais tempo me sobra. Mas por cá vou continuar a andar com regularidade indefinida.


Bem Ajam vizinhos!

terça-feira, maio 16, 2006

Incêndios florestais

Os centros comerciais são os eucaliptos do urbanismo, onde são implantados secam tudo à volta.

sábado, maio 06, 2006

segunda-feira, maio 01, 2006

Leituras 10


"O que teria acontecido nos EUA e no mundo se o célebre aviador de ideias anti-semitas, Charles Lindbergh, se tivesse apresentado às eleições em 1940 e tivesse derrotado Franklin Roosevelt?"

O livro é muito bom, todos os Philip Roth são aliás muito bons. Apesar de não ser um romance como "A Mancha Humana", inteiramente centrado em questões individuais, "A Conspiração" é sobretudo um livro sobre a comunidade judaica nos EUA antes da segunda grande guerra. O narrador é o filho mais novo de uma família judaica que encarna a comunidade em todas as facetas.
Apesar da ficção, notei ainda a omissão a todas as outras raças dos EUA que foram, com ou sem Lindbergh, oprimidas nesses anos.

sábado, abril 29, 2006

Canções 9

PINK FLOYD

Nobody Home

I've got a little black book with my poems in.
Got a bag with a toothbrush and a comb in.
When I'm a good dog, they sometimes throw me a bone in.
I got elastic bands keepin my shoes on.
Got those swollen hand blues.
Got thirteen channels of shit on the T.V. to choose from.
I've got electric light.And I've got second sight.
And amazing powers of observation.
And that is how I know
When I try to get through
On the telephone to you
There'll be nobody home.
I've got the obligatory Hendrix perm.
And the inevitable pinhole burns
All down the front of my favorite satin shirt.
I've got nicotine stains on my fingers.
I've got a silver spoon on a chain.
I've got a grand piano to prop up my mortal remains.
I've got wild staring eyes.
And I've got a strong urge to fly.
But I got nowhere to fly to.
Ooooh, Babe when I pick up the phone
There's still nobody home.
I've got a pair of Gohills bootsand I got fading roots.
Volto sempre ao Roger Waters quando me sinto assim...

sexta-feira, abril 28, 2006

Poema

Ela entrou com embaraço, tentou sorrir, e perguntou tristemente - se eu a reconhecia?
O aspecto carnavalesco lhe vinha menos do frangalho de fantasia do que do seu ar de extrema penúria. Fez por parecer alegre. Mas o sorriso se lhe transmudou em ricto amargo. E os olhos ficaram baços, como duas poças de água suja... Então, para cortar o soluço que advinhei subindo de sua garganta, puxei-a para ao pé de mim e, com doçura:
- Tu és a minha esperança de felicidade e cada dia que passa eu te quero mais, com perdida volúpia, com desesperação e angústia...


Manuel Bandeira (1886 - 1968)

domingo, abril 23, 2006

A minha cidade campeã.

A minha cidade está em ebulição. Ouço buzinas no meu jardim, perto, longe. Um todo de buzinas como um zumbido. O Porto é campeão, o meu clube, a minha cidade. Não fui para a baixa, tenho uma filhota que ainda não entende nada de bola e por mim pouco vai ficar a entender, desde que seja do FCP. Não desejo mal aos meus adversários mas no ano passado custou-me ouvir umas buzinadelas esporádicas na rua, é como se o meu vizinho ficasse com a promoção no emprego e viesse festejar para a porta da minha casa.
Lembro-me quando o meu irmão tinha 13 anos e numa noite de S.João, perguntou inocente ao meu pai: “Este ano não ouve aquela festa antes do S.João?” A festa era o Porto campeão, foi o Boavista e bem aja também. A cidade também vibrou.
Viva a minha cidade campeã!

sexta-feira, abril 21, 2006

Novo blog

o blog onossocalao.blogspot.com é uma aventura falada. Tudo que dizemos mas que não vem no diccionário, às vezes até vem. É a aventura que decidi iniciar em paralelo com o buraco. Lembram-se de alguma expressão curiosa?

segunda-feira, abril 17, 2006

Porto

O holandês ganhou o derby que realmente interessava e isso é tudo que interessa agora.



Are you talking to me?

quinta-feira, abril 13, 2006

Fumar Mata

Acabemos com o fumo nos locais de trabalho. Já agora acabemos com a imbecibilidade humana também, acabemos com a poluição sonora que é ouvir algumas pessoas falar e acabemos também, com as roupas pindéricas e penteados desastrosos que por certo tiram anos de vida a muito gente incauta que olha sem querer, acabemos com o mau hálito do vizinho da secretária ao lado e acabemos de vez com os politícos, juizes embargadores e árbitros de futebol. A Isabel não sei quê, podia também desaparecer, da televisão. Acabemos com os condutores de domingo, anos de vida nos são tirados por essa espécie perfeccionista e piquinhas. Acabemos com as multas. Porra é tão fácil, afundamos o país, façamos dos castigos corporais lei, batiamos nas crianças sem distinção e carimbar isso noutra lei, acabemos com os bons pais de família porque é também de lei e reconquistemos tudo outra vez. Acabemos com desabafos assim mal escritos e desaguemos para outro parágrafo antes que alguém acabe comigo.

quarta-feira, abril 12, 2006

Espuma dos dias

O único romance que tenho com o meu emprego é cheque ao fim do mês.

sexta-feira, abril 07, 2006

Os copos dançam

Três copos no balcão dançam,
A balada dos perdidos,
Batons vermelhos no escuro
Abrem-se em sorrisos duros.
Já fomos muito mais
Heróicos nas batalhas travadas,
Armas com cravos exportávamos,
Gente era gente não uma patente.

terça-feira, abril 04, 2006

Ouço um autocarro na noite

Ouço um autocarro na noite,
Ofegante na desacelaração em desabafo,
Lambe a curva apertada
Antes da acelaração desesperada,
Rasgando passados esquecendo promessas,
Para a frente é que é estrada.

Quem levará aquele carro,
A esta hora da madrugada?
Que Porto procuram os viajantes?
Preferem crescer embriegados
Dos crescidos adultos mutilados,
Ou presos no cansaço de um coração tardio?

Decidi, quero entrar,
Não espero nem mais um segundo,
Parem o mundo que quero meter o pé,
E como um intruso participar,
Nesta farsa burlesca, deveras dantesca.
Coluna direita, olhos em frente.

segunda-feira, abril 03, 2006

Canção de amigo

Meu amigo não dispensa
Três dedos de bilhar,
Uma cerveja fresca,
Na esplanada junto ao mar.
Não conta as estrelas
Mas tem jeito de sonhador,
Um sorriso franco,
Que se confunde com Amor.

Não entra em discussões
Que sabe vai perder,
Prefere a mulher fresca
Que passa a correr.
Tem um coração ingénuo
Impossível de mal tratar,
Mas se o caldo se entorna,
Mete o punho até estalar.

Gostava um dia de ser
Alguém forte como ele,
A vida não lhe mete medo
Seja qual for o enredo.
O sorriso no canto da boca
De quem nada pode perder,
Porque cresceu sem nada
E tudo parece ter.

domingo, abril 02, 2006

Parque Biológico de Gaia







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