sábado, agosto 13, 2005

Leituras 5



Foi uma coincidência devo admitir, embora depois de ler os oito contos deste “O Buraco na Parede”, me custe esse facto, porque podia ser uma homenagem e se assim fosse, só o meu blog ficaria a ganhar. Mas a verdade é que a única coisa que sabia de Rubem Fonseca, era que tinha sido galardoando com o Prémio Camões em 2003, mas ainda não tinha sentido curiosidade para o procurar. Assim, esta singela coincidência de nomes, fez-me encontrar um autor que merece que os leitores menos atentos, como eu, o encontrem.

sexta-feira, agosto 12, 2005

Um gelado na praia

Caminhávamos os dois ao fim do dia. Nada como um gelado ao pôr-do-sol. Os meus passos seguindo os teus passos, esmagando a tua fina pegada na areia molhada. O perfil da tua carne branca numa toalha azul. “Passa para a frente. Quero seguir teus passos agora.” Corri até me perder e nesse espaço de tempo o avião explodiu no ar. Transformou-se em segundos numa bola de fogo, fumo e combustíveis fosseis; nenhum passageiro sobreviveu. Até hoje ninguém sabe ao certo o que desencadeou a explosão, embora se fale pelos corredores e hangares da companhia aérea em ataque terrorista? Falha mecânica? Ouço o teu nome na garganta de um pássaro, não são bem as sílabas do teu nome mas é por ti que ele chama.

quinta-feira, agosto 11, 2005

Enquanto não começa a bola...


...vai-se jogando um ISS PRO para matar o bicho.

quarta-feira, agosto 10, 2005

"Heroin, it´s my life and it´s my wife"

Por falar em Velvet Underground, existia na escola preparatória Gomes Teixeira, quando para lá fui estudar, 82/83, uma grafite em letras brancas corridas, virada para a rua Júlio Dinis, que alertava os transeuntes dizendo: “Heroin, it’s my life, it’s my wife!”. Aquela frase fora do contexto sempre intrigou os meus 12, 13 anos; que mulher, que heroína inspiraria tamanha devoção? Mais tarde descobri o grito de Lou Reed e com ele veio a guerra, as mutilações, os petardos a caírem sem piedade no meu bairro, abrindo intransponíveis crateras entre famílias e amigos.

terça-feira, agosto 09, 2005

Regresso

A chuva chegou com força demoníaca varrendo a cidade da sujidade. Escorriam rios de água e lama pelas ruas desertas. Cães vadios remoíam o lixo e candeeiros com luz trémula perfilhavam os passeios em legiões de fantasmas. A mulher tinha desaparecido o emprego era uma farsa. Rajadas de vento levantavam nuvens de folhas do chão que se erguiam no ar em pequenos espirais. As mãos geladas a custo tiraram a chave do bolso; a fechadura acolheu a velha amiga. Subiu as escadas carcomidas de húmidade e maus-tratos. Onde estava alguém? Sentiu uma estranha necessidade de fazer algo por aquele pobre prédio, talvez envernizar as escadas. Podia arranjar o soalho de casa. O cheiro da intimidade misturava-se com o ar fresco da janela aberta. Lavou a cara com água morna e deixou-se ficar a olhar ao espelho até os olhos, o nariz e a boca se começarem aos poucos a deformar e uma massa de carne aparecer reflectida; uma outra face no espelho, neste momento era a dela. Tirou a garrafa do saco e deu uma golada; a pressa de chegar a casa desapareceu, agora queria sair, mas para onde ir; a alma rota esvazia. Não havia preparação para tal coisa. O cheiro a mofo dos livros nas estantes, o papel na parede, o sofá restaurado, tudo aquilo era dual. Não demorou muito tempo até M. pegar num martelo, numa chave de fendas e começar a arrancar os tacos do chão.

segunda-feira, agosto 08, 2005

Companheiro de fumo

Sempre que venho à varanda fumar um cigarro, lá está ele no prédio do outro lado. Não lhe consigo ver as feições, só a beata incandescente entre as janelas da marquise, mas sei que está a olhar para mim como eu para ele.

domingo, agosto 07, 2005

6 de Outubro de 1972



Fiz uma pesquisa na net para descobrir personalidades que fazem anos no mesmo dia do que eu. Descobri dois jogadores da bola, um defesa sueco (Andreas Jakobsson) e um guarda-redes australiano (Mark Schwarzer). Depois há um jogador de futebol americano J.J Stokes (poderoso quarterback), aquele ali em cima com o número 83 e um actor Koreano chamado Ryu Si Won. Nunca tinha ouvido falar deles e eles certamente nunca ouviram falar de mim, mas que temos algo em comum isso ninguém pode negar.

Em anos diferentes mas também a 6 de Outubro, temos o primeiro dia de emissão da SIC e a morte da Amália Rodrigues. Sim é verdade, desde à cinco anos para cá, que passo o dia de aniversário a ouvir a saudade e a melâncolia do fado; como se já não bastasse o facto de envelhecer mais um ano.

sábado, agosto 06, 2005

Dia de pesca

Acordei sobressaltado já passavam dez minutos do meu horário de trabalho. Tomei banho à pressa, engoli um copo de leite frio, vesti-me, abri a porta da rua e voltei à sala; sentei-me, hoje não ia trabalhar. O dia estava lindo e o sol primaveril espreitava pelas janelas. “Estou? Susana? Diga por favor ao Sr. Luís que não vou trabalhar, passei mal a noite e vou ver se arranjo uma consulta.” Fui à despensa e tirei as canas de pesca, herança do meu avô; testei o carreto em frente ao espelho. “O Sr. Luís telefonou a dizer que também não vinha trabalhar, parece que o mal é geral”. O carreto lubrificado com óleo de fritos deslizava na perfeição; chumbos em forma de corações e anzóis em forma de anzóis. Vesti um colete verde tropa que nem sabia existir. Arrumei as tralhas dentro de um saco de pano com cheiro a minhoca tostada e desci as escadas, eu, o pescador. Só depois de arrancar o carro é que me lembrei que nunca tinha pescado sozinho o que só aumentou a minha determinação.
Um cartaz na marginal: “Temos Bixa.” Mas naquele dia, só pulga: “É melhor para o robalo.”
Montei um pequeno banco de tecido. A primeira vez que lancei, ficou tudo no rio, só não foi a cana porque a agarrei, a linha velha e gasta rebentou; só um pequeno contratempo até o robalo de cinco quilos saltar para o meu cesto. Lancei. Foi um bom lançamento quase alcançando Gaia; sem obviamente exagero nenhum. Sentei-me à espera. Os barcos, os barcos rasgando a água. O sono morno. Um casal passeando de mão dada. Um puxão, agarrei na cana, outro puxão. “Deixa-o cansar, o peixe precisa de pensar que está a salvo, não queiras tirá-lo logo, dá-lhe linha, não o assustes.” Senti-lhe o pulso dei-lhe linha e ele foi. Por cada espaço que lhe concedia, puxava o dobro para a margem. Com a mão livre tentei chegar ao saco. O coração disparou, o Sr. Luís, olhava-me por cima do ombro. Estava acompanhado de uma jovem e bela rapariga. Parei. Fingi não ver. “Não deixe o peixe escapar homem”. Tentei concentrar-me no peixe, vi-lhe a boca na superfície espelhada. Estava sem forças para se debater, no ponto onde eu o queria. Levantei a cana e agarrei-o com a mão esquerda. “Que belo peixe”. Disse para a sorridente adolescente recomeçando a andar. Mas era só uma velha tainha e aquela rapariga não era a mulher do Sr. Luís.

sexta-feira, agosto 05, 2005

Os teus beijos

Os teus beijos ondas do mar
Os teus beijos ferro em brasa
Os teus beijos sufocados
Os teus beijos bom dia.
Os teus beijos espadas
Os teus beijos água fresca
Os teus beijos vorazes
Os teus beijos boa tarde.
Os teus beijos folhas de eucalipto
Os teus beijos montanha de neve
Os teus beijos relâmpago
Os teus beijos boa noite.

quinta-feira, agosto 04, 2005

Dia na cidade

Quando a manhã regressou ao Porto e o encontrou com nuvens de fumo no ar, recusou-lhe a luminosidade; depois o sol, tossindo febril, amarelou doentiamente o fim de tarde.

quarta-feira, agosto 03, 2005

terça-feira, agosto 02, 2005

Drunk

I think I´m getting drunk
No love can save me now
I just want a last beer honey
To go away from this crazy town

I must be dreaming
A happy end
I´m to drunken baby
Please be my friend

And buy me a last bottle
I don´t have no money left
Please, please, please the last one
I promise I don´t chase you anymore

I must be dreaming
With a happy end
I´m to drunken baby
Please be my friend

I got bad liver
Right one
I got bad brain
Come on
I´m a loser baby
Right one

segunda-feira, agosto 01, 2005

domingo, julho 31, 2005

Avô

Dei comigo a pensar no meu avô e do muito que ainda poderia ter aprendido com ele, as aventuras de vida de um rapaz que com dezasseis anos é arrancado da aldeia para trabalhar numa fábrica na cidade, foi o que mais deixei escapar; se lhe tivesse prestado mais atenção, contava-vos com certeza outra coisa neste post. Mas tentem compreender, eu era apenas um miúdo borbulhento quando ele desapareceu, um catraio a tentar encontrar a melhor forma de encaixar a caixa de ossos no mundo. De qualquer maneira, tudo que quero dizer, é que só sabemos para onde vamos quando compreendemos de onde viemos.

sábado, julho 30, 2005

sexta-feira, julho 29, 2005

Oh Socrates Socrates what have we done?

Tell me true tell me why was Jesus crucified
Is it for this that daddy died?
Was it for you? Was it me?
Did I watch too much T.V.?
Is that a hint of accusation in your eyes?
If it wasn’t for the Chinese,
Explore there people so good,
The factories of textiles still be open

And it can't be much fun for them

Beneath false communism
With all their brains running away
What have we done Socrates what have we done
What have we done to Portugal
Should we shout should we scream
"What happened to the 25 de Abril dream?"
Oh Socrates Socrates what have we done?


*Pink Floyd "The Final Cut" - Post War Dream
*Colagem para a realidade portuguesa

quinta-feira, julho 28, 2005

Porto, 28/7/05, 6 da manhã

Acordei com gritos de gaivotas em nuvens pretas e buracos de azul; voavam em círculos lunares. Quando acalmaram, um galo laranja empoleirou-se num telhado distante e um cão latiu entre as filas de casas. Apaguei o cigarro e pequenos pássaros detectives piaram entre a caruma do pinheiro. A madrugada na cidade pertence aos animais urbanos.

quarta-feira, julho 27, 2005

Sol da meia-noite

Agora um post egocêntrico


Uma das minhas bandas preferidas de todos os tempos.

terça-feira, julho 26, 2005

Amor incondicional

Só posso dizer que o meu coração desmaia de espanto sempre que a Leonor abre os olhos.

Com esta frase, faço por agora uma pausa de posts relacionados com paternidade, apesar de este ser um tema a que vou voltar sempre; sabem, tenho medo de ficar demasiado lamecha para alguém me aturar e com textos carregados de adjectivos como linda, frágil, bonita, doce e substantivos como ternura, felicidade e Amor. A verdade é que não tenho talento suficiente para escrever o que realmente me corre na alma e ter um filho é uma experiência que tem de ser vivida para se compreender.

Obrigado a todos e parabéns para pais e mães...

segunda-feira, julho 25, 2005

Chiiuuuu...

...não façam barulho, não falem alto, não batam com as portas, nem arrastem os pés. A minha filhota finalmente adormeceu e a mãe e eu precisamos muito de dormir.

quarta-feira, julho 20, 2005

Nasceu a minha filhota

Amigos que passam por este blog e mundo em geral.
Fui pai no dia 19 de Julho de 2005 às 16h03m, estou eufórico.

Correu tudo bem. Volto brevemente.

terça-feira, julho 19, 2005

As Ilhas

Chegamos à ilha de barco, numa enorme e bonita traineira chamada Espuma que vendo terminados seus dias de faina, se reciclou ao transporte de turistas. Mal a Espuma começa a sulcar as primeiras ondas, pequenas ilhas como que saltando do mar, abrem um estreito desfiladeiro por onde o barco passa. Todas estas pequenas ilhas têm um farol para guiar os marinheiros incautos em noites de breu. A maior parte delas tem apenas espaço para o farol, parecendo a quem se aproxima de norte, enormes falos neptunais saídos da água. Mais à frente e quando as ondas começam a crescer em forma de u’s invertidos e as primeiras indisposições aparecem entre os passageiros, duas grandes ilhas surgem no horizonte; a primeira com um rabo largo em forma de pêra e a segunda estreita como um cigarro. A Espuma levanta a proa e funde-se agora no sopro salgado. Este foi o pôr-do-sol mais real que até hoje tive a oportunidade de admirar, as nuvens a servirem de filtro natural, permitindo o olhar nu. O meu sócio não partilha a minha emoção e, sentado na ré, maldiz a hora em que se tinha deixado convencer a tal viagem; pela face escorre-lhe um visco amarelado de enjoo.

segunda-feira, julho 18, 2005

Leituras 3



Pequenas histórias de difícil digestão.

domingo, julho 17, 2005

Restos (Parte II)

A Subir

Ajeitei o cabelo no espelho do elevador. Deve ser um bom emprego ficar atrás dos espelhos dos elevadores. Será que ganham bom dinheiro? Procurei não exagerar nos arranjos, não queria que pensasse que era vaidoso. Ao sair sorri e fiz uma vénia, só para lhe dizer que eu não era nenhum estúpido e sabia perfeitamente que ele estava do outro lado.

A Descer

Agarrei-lhe a mão e entramos no elevador. Bem me quer, mal me quer, as luzes passavam pelos andares, bem me quer, mal me quer. Fez uma careta ao espelho quando saímos. Será que também sabia do homem que lá estava? Poderá tal coisa estar ligada aos genes? Ao DNA? Será que uma coisa como saber que existem homens atrás dos espelhos dos elevadores passa de pais para filhos? Mal me quer. Pim!

Na Rua

Os satélites no espaço devem descarregar raios e fluxos energéticos capazes de fritar a massa cinzenta da humanidade. Será que alguém já tinha estudado isso?

sábado, julho 16, 2005

E.R.V.A.



Noites e madrugadas, palestras sem fim.

sexta-feira, julho 15, 2005

Cinema ao ar livre...

Não posso ver cinema ao ar livre!



Principalmente quando há um bar perto!



Não me consigo concentrar, perco o sentido ao filme e falamos da guerra do Iraque.

quinta-feira, julho 14, 2005

Depois de um ano e dez dias...

Ontem, no centro da cidade, um grego pediu-me direcções. Eu, com toda a boa vantade do mundo, indiquei-lhe o caminho e perguntei se estava a gostar de Portugal, ao que ele respondeu em perfeito inglês:
- Off Course, it's the country where we win the European Championship.
Franzi o sobrolho e ele respondeu cordial:
- Sometimes we win, sometimes we lose.
Ao que eu respondi entredentes em português dos arrebaldes:
- Se fosses mas é à berdamerda!

quarta-feira, julho 13, 2005

Cinemascópio

CINEMASCÓPIO - CICLOS DE CINEMA TEMÁTICOS
CICLO "REPOSIÇÕES AO AR-LIVRE"
TODAS AS SEXTAS ATÉ AO FIM DO MÊS DE JULHO

SESSÃO DE SEXTA-FEIRA 15 JULHO - 21H45
O Estrangeiro Louco, de Tony Gatlif

Auditório do Círculo Católico de Operários do Porto
Rua Duque de Loulé, 202 - Porto

ENTRADA LIVRE

terça-feira, julho 12, 2005

segunda-feira, julho 11, 2005

Era uma vez...

...um blog que só escrevia sobre outro blog para ser lido por esse mesmo blog, e só quando esse blog desapareceu, é que o nosso blog compreendeu a alhada em que se tinha metido.

domingo, julho 10, 2005

Às voltas na noite

É bom encontrarmos amigos que não vemos há séculos.

e...

Sempre que entro num sítio onde está dar U2 os meus sentidos animam-se Não me perguntem porquê eu até já não os ouço em casa há séculos.

sábado, julho 09, 2005

sexta-feira, julho 08, 2005

The Blues Are The Roots; Everything Else Are The Fruits*



The Blues, com produção executiva de Martin Scorsese, consiste em sete filmes, com visões de sete realizadores (Martin Scorsese, Wim Wenders, Richard Pearce, Charles Burnett, Marc Levin, Mike Figgis e Clint Eastwood), que capturam a essência dos Blues, enquanto exploram em simultâneo como é que esta forma de arte influênciou a música e as pessoas de todo o mundo.
Muito, muito bom e já sabem, se não tiverem 90 euros para mandar vir pela net, ou não encontrarem em nenhuma loja (como eu não encontrei), descarreguem pelo emule.
*Willie Dixon

quinta-feira, julho 07, 2005

Atentado em Londres

Nestas alturas parece que sinto uma empatia com a guerra ao terror de Bush. Felizmente racionalizo.

quarta-feira, julho 06, 2005

terça-feira, julho 05, 2005

Restos

Agora tem uma câmara digital que não larga. Tira fotos a tudo, desde filas de trânsito, montras, candeeiros da rua, anúncios em néon, aviões, fotos a mãos, pés e lábios. Anda como que anestesiado pela cidade à procura de coisas para guardar na máquina, sejam usuais ou não, tudo lhe interessa. Na semana passada a mãe disse-me que o seu último divertimento era tirar fotos à televisão, numa cadência de flashes que andavam a pôr a sua sanidade mental à prova. Segundo entendi, quer construir um diário fotográfico. Ao fim do dia, antes de se ir deitar, escolhe as três melhores fotos e arquivava-as num conjunto de ficheiros com as datas. Tem já um arquivo de seis meses.
“Quando morrer, - dizia com o dedo no nariz, - alguém vai ver e sentir o mesmo que eu.”
Não consigo compreender como um miúdo de sete anos fala da morte como uma realidade objectiva.

segunda-feira, julho 04, 2005

domingo, julho 03, 2005

Nesse dia comi o maior gelado

“De que clube queres ser?”
“Não sei.”
“Só podes ser de três, Porto, Boavista ou Salgueiros.”
“Não posso ser do Sporting?”
“Não, tu não queres ser do Sporting. Vá lá, Porto, Boavista ou Salgueiros?”
“Não sei.”

...
“Aqui é o estádio de Vidal Pinheiro, gostas?”
“É giro.”
“Este é o estádio do Bessa. Então que achas?”
“É bem maior do que o outro!”
“E este é o estádio das Antas.”

sábado, julho 02, 2005

Live Aid & Live 8



É inadmissível e grotesco pensar que morre uma criança à fome e doente em cada três segundos.
A guerra ao terror deve começar aqui, perdoar a dívida africana, fornecer medicamentos baratos a quem está doente acabando com a avareza das farmacéuticas, comércio justo e não de portas trancadas, porque enquanto morrer uma criança em cada três segundos, o mundo vai continuar um inferno.

Há vinte anos o Live Aid pouco mudou, ficou a indignação, as lágrimas de cada vez que um miúdo com a cara crivada de moscas aparecia na televisão e uma noite inteira de concertos e discursos. Quero acreditar que agora é diferente, que hoje existe uma real possibidade de a pressão por nós exercida dar frutos. Assinem as declarações nos sites em baixo.

www.makepovertyhistory.org
www.one.org
www.live8live.com
www.pobrezazero.org
www.pressureworks.org

sexta-feira, julho 01, 2005

A ler um livro


Será de princesas e dragões? Ou o resumo das novelas?

quinta-feira, junho 30, 2005

Sinopse

Um professor com o sonho de reunir milhares de citações e juntá-las de forma a tornarem-se num todo inteligível - o livro do mundo. Um antigo aluno, pretendente a escritor que confunde Amor com poesia, visita o professor regularmente e torna-se o narrador desta história. Uma empregada de limpeza que não limpa nada e um cão que finge ser cego para captar a atenção dos donos.

Ou...

...tudo isto é uma treta e eu não me consigo concentrar no trabalho que me paga a renda.

quarta-feira, junho 29, 2005

terça-feira, junho 28, 2005

Lucky Luke


Mais rápido que a própria sombra

segunda-feira, junho 27, 2005

Troca não comercial

Enviei para o Brasil, a pedido do meu amigo Miguel, uma adaptação dramática dos Possessos de Dostoievsky escrita por Albert Camus, que ele não conseguia encontrar em lado nenhum; ironicamente a editora é a Livros do Brasil. Recebi hoje, em jeito de troca não comercial, uma camisola do Santos, a mítica número 10 do Péle e três cd´s de António Abujamra, conhecido encenador brasileiro, a recitar, - sem ponta de ironia, - poesia de Fernando Pessoa.

domingo, junho 26, 2005

Leituras 2


"Para Nelson Rodrigues, a verdade do futebol estava além do que os olhos podiam ver. Se o videotape não mostrava a sua verdade dos factos, pior para os factos, ou o videotape era burro"

sábado, junho 25, 2005

Barco


Entrei em contacto com a obra de Baltazar Lopes em 2001. O objectivo era fazer uma adaptação em teatro, para o grupo Burbur, do seu romance “Chiquinho”. Li por essa altura alguns contos de Baltazar Lopes para me ajudar a situar a acção nas ilhas cabo-verdianas e houve um que me ficou para sempre na memória. Era a história de um velhote que no fim da vida, construíra um barco para viajar entre as ilhas, mas que depois de estar pronto, descobria que não tinha maneira de o tirar do jardim onde o construíra. Um barco encalhado nas traseiras de uma casa, sem nunca conhecer o mar, sem fazer aquilo para o qual tinha sido destinado.

Por alturas em que trabalhava nessa adaptação, mudei para uma casa um pouco maior. A casa tinha um jardim e estava colada a outra onde ainda vive o Sr. Serafim. Oitenta e cinco anos de marceneiro, fotografo, inventor, marinheiro, agricultor. Quando de bom humor, as recordações, piedosas, voltam à sua cabeça como uma longinqua lembrança, então fala sobre como adora velejar e de ter sido um dos primeiros fotógrafos a fazer casamentos no Porto. Foi também das primeiras pessoas a vender móveis a prestações, móveis que ele mesmo fazia. Um dia falou-me do catamaran que tinha construído. O barco, que se desmontava até caber no carro, já tinha navegado por alguns rios da Europa e, o seu maior feito, percorrido o rio douro desde a fronteira de Espanha até à foz; viagem que o Sr. Serafim ainda quer voltar a fazer.

A semana passada notei um mastro a sair da vegetação no fundo do jardim. Perguntei ao Sr. Serafim que logo me levou a ver o catamaran montado. Para passar o tempo tinha juntado as peças do velho barco. Falou das aventuras partilhadas e a meu pedido, montamos a vela vermelha e branca. Apesar daquele catamaran ser desmontável, a minha imaginação levou-me a Cabo-verde, onde o velhote por fim consegue trazer o mar até ao jardim.

sexta-feira, junho 24, 2005

quinta-feira, junho 23, 2005

Noite de S.João

Da Boavista às Fontainhas
Ó meu rico S. João,
Faz que não faltem as sardinhas
Enche-nos de satisfação.

Nestes tempos de crise,
Que já não temos recuperação,
Dai-nos ao
menos uns trocos
Para comprar um balão.

E se estiveres de bom humor
Nesta noite cheia de vida
Não levas a mal mais um favor
Enche as ruas de alegria.

quarta-feira, junho 22, 2005

Uma estrela entre milhões


Esta foto serve-me para recordar o quão insignificantes e extraordinários todos nós somos.

terça-feira, junho 21, 2005

Anjos de Verão


Carícias antigas caíram no meu sono,
Aconcheguei-as junto ao peito
Como quem mata um cabrito.
Amei em silêncio e a ti também.

Carroças de bois, terra aguilhotinada,
Lâminas de pinheiros em fardos de ar.
Tive medo por mim e por todos nós,
Com os pés presos em blocos de cimento.

Pensei ouvir teu clamor no orvalho,
Mas era o verão a trepar pela calha.
Inclinado no teu dorso senti-o
Forçar as cortinas do nosso olhar.

segunda-feira, junho 20, 2005

The Black Keys



Com a quantidade de bandas que aparecem e desaparecem, há alguns nomes que não podemos deixar passar em claro.

domingo, junho 19, 2005



Tantas casas a desaparecer para prédios sem alma erguer.

sábado, junho 18, 2005

Fraco poeta, louco de Amor



Esperamos por ti.
Sem maldades do mundo
Sem falésias no coração.

Iguais aos da mãe,
Sonhámos abraçados
Em cabelos enrolados.

À espera do sorriso
Aguardamos extasiados
Sempre embriagados
De Amor por ti.

Parece já ver,
Tua face rosada
Teus dedos de fada,
Para eu sorver.

sexta-feira, junho 17, 2005

Leituras


O último capitulo deste livro tem a cena mais electrizante que até hoje li.

quinta-feira, junho 16, 2005

Para lá da noite

Quando acordei ela ainda lá estava. A cabeça pousada na almofada e os cabelos enrolados nos meus. Não me mexi. Fingi ser uma pedra para a não acordar. Os lençóis subiam pelas pernas e pousavam na barriga, deixando a descoberto o umbigo, uma pequena flor, lindo como um biscoito cru. Escorreguei pelo colchão e beijei-lhe o útero. Mexeu-se. Por vezes, quando suspirava assim no sono, recordava-me aquela que já não volta, aquela partida de mau humor, um fundo seco de um poço de lágrimas, daquela que já não volta. Não tenho ilusões, quando acordar, a voz deste corpo não é o dela, recuso ser enganado, quero ser enganado. Passo-lhe a mão pela face e enrolo o indicador num fio de cabelo. Sei que não és tu, mas podíamos fingir, diz que sim e eu fico, ando pela tua casa de roupão e preparo o pequeno-almoço que te levo à cama numa bandeja de carinho. Podemos tentar se quiseres. Suspira. Beijo-lhe as mãos. Se cortares um pouco o cabelo e deixares de pintar os lábios nesses tons de vermelho, talvez o perfume dela ajude. Eu deixo-me enganar se quiseres. Passo o peito do pé pela coxa morna de sono. Puxo os lençóis para baixo e ela estremece, ainda quente. A que não volta tinha mais cabelos, uma farta cabeleira em segredo. Se eu te pedir, deixas crescer o cabelo do Amor? Podíamos tentar se a luz, teimosa, não insistisse em entrar pelas frinchas da persiana e os seus raios me devolvessem a tua cara por completo, que não é a dela. Deixo cair a perna da cama, depois rolo um pouco o corpo até estar no limite e com um silêncio de caçador, pouso ambos os pés no chão e escorrego até à casa de banho. Este cheiro não é meu, este odor que fica aqui não é meu. Podíamos tentar se não fosses tão alta. Olho-me feio ao espelho. Hesito. Volto ao quarto e encarcero a luz da manhã. Sem luz tudo se encaixa, a tua respiração é-me familiar.

quarta-feira, junho 15, 2005

Sobressalto

Fugíamos do ócio, quarta classe talvez, para fazermos explorações a grutas do subsolo do Porto, uma das quais, segundo fonte fidedigna, um adolescente com mais 10 longos anos que nós, começava na falésia onde pousa o arco norte da Ponte da Arrábida, atravessava a zona da Boavista e continuava em minhoca até Arca de Água. Nunca demos com a entrada por muito que procurássemos e para ser sincero, nunca encontramos nenhum desses túneis. Invariavelmente desistíamos e fumávamos uns Kentucky ou mata-ratos, no topo dos arcos da ponte. Depois, já sem esperança e agoniados, escorregávamos pelos arcos abaixo dentro de uma caixa de cartão. Hoje sobressaltei-me no sono novamente, o cartão, como que movido por vontade própria, tinha outra vez desviado o rumo para o rio.

terça-feira, junho 14, 2005

Pecado?


Dizem-nos que não podemos tocar. Estão ali à nossa frente mas não podemos tocar. Podemos ver um filme que nem a loja mais especializada tem ou um álbum de uma banda esquecida pelas distribuidoras. Temos acesso a documentários sobre o corpo humano, sobre o espaço, sobre civilizações antigas, bibliografias e tudo o mais. Mas não podemos tocar.

Estou contra todo o tipo de negócio que envolva este tipo de acesso a material, nunca comprei videos piratas, nem cd's de música, mas para consumo individual? Desculpem, mas não tenho dinheiro para tudo que quero ver e ouvir, nem pachorra para IVA a 21% sobre a música e DVD’s e muito menos para esperar pelas promoções com apenas 10% de lucro para o revendedor em vez dos 20 ou 30. Não me vou privar das coisas que quero conhecer quando as tenho mesmo à mão.

Baixem os preços dos CD’s e dos DVD’s, reduzam o IVA.

segunda-feira, junho 13, 2005

Frente a Frente

Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!

Eugénio de Andrade (1923-2005)

domingo, junho 12, 2005

O melhor concerto


Foi o nosso melhor concerto. O público estava animado, cerca de sessenta pessoas, as falhas foram poucas. As músicas novas pediram dança e toda a gente se movimentou. Pediram encore, fizemos dois e uma das músicas foi acompanhada com palmas. Em noites como esta ficamos com a sensação de que vale a pena continuar, o esforço que temos é recompensado pelo retorno que sentimos. Muitos abraços e cumprimentos no fim. Alguém confessou que naquela noite, foi o melhor concerto do mundo, se não contássemos com os fusos horários. Ainda tivemos um improviso de um amigo em gaita-de-foles que varreu a noite em tons celta. Foi uma noite boa em que quase tudo correu bem, excepto talvez o torcicolo com que acordei no sábado; mazelas do rock´n´roll.

sábado, junho 11, 2005

1975 - Parte II

Falava ontem do escaldante ano de 1975 e hoje ouço nas notícias que Vasco Gonçalves tinha falecido.

"A terra para quem a trabalha"

Adeus camarada.

sexta-feira, junho 10, 2005

1975


O país estava arder em 1975. Os dois lados da barricada bem definidos.
Falava-se em guerra civil e pelas ruas rebentavam batalhas campais
entre a revolução e a reacção.
Eu sentia-me seguro e protegido como nunca até hoje.

quinta-feira, junho 09, 2005

[xi]

"fundemos uma revista

que se lixe a literatura
queremos uma coisa com sangue na guelra

piolhosa com pura
fedendo com absoluta
e destemidamente obscena

mas deveras limpa
estão a ver
não estraguemos a coisa
façamos a coisa a sério

qualquer coisa de autêntico e delirante
percebem qualquer coisa de genuíno como uma marca
numa retrete

agraciada com gana e esganada
com graça

apertem os tomates e abram a cara"

e.e.cummings (1894-1962)

Com o rio nos olhos

Fui ver os Bunny Ranch e os The Flaming Sideburns, uma banda filandesa com um poderoso e bem humorado vocalista argentino; alguém do público grita "MARADONA", ele responde apresentando a banda como um perigoso lance radiofónico. Irradiaram energia pura e toda a gente sabe que depois da primeira vem sempre a segunda e o velho barco, sem alma, sem motor, solta gemidos. Chegam alguns amigos e vai a terceira para empurrar a conversa e o rock. Grita-se, discute-se e argumenta-se. Pela escotilha, o rio ao nível dos nossos olhos espelha o céu, uma traineira saí para a faina rasgando a ponte de água até o areinho. Por momentos é me dificil acredito que estou ali, mas o sacana do tempo, não deixa e escoa-se lesto para o rio debaixo de nós. A luz da manhã ergue-se nas costas, as dragas estão silenciosas, a cidade suspira. Um abraço pela companhia, mas não me perguntes pelas conversas, não me recordo de nenhuma embora tenha a certeza que foram importantes. Nos ouvidos o zumbido do feedback acompanha-me à cama.

quarta-feira, junho 08, 2005

terça-feira, junho 07, 2005

Sereiazinha


Paula Rego

Qual será o segredo deste quadro? - pergunta a professora.
A menstruação, - responde a clarividente aluna de onze anos.

Get Behind Me Satan



É verdade que metade é marketing. Irmãos, divorciados e cenas de pancadaria. Mas quem conseguir ou tiver a paciência para se elevar acima do pré-fabricado, vê que no fim sobram as músicas e depois de ouvir as treze sorri. A guitarra eléctrica (belíssima AirLine) foi trocada pelo piano e uma acústica em grande parte das canções e a habitual combustão de pratos de choque e bombo vão-se lentamente evaporando depois das primeiras músicas. É um álbum muito melódico como aliás os outros, mas sem a raiva habitual (detesto a palavra maduro), talvez os White Stripes tenham percebido que as encruzilhadas estão espalhadas pelo caminho e que o diabo, paciente, aguarda de mão dada a Robert Johnson numa delas...

sábado, junho 04, 2005

Arramjem-me um emprego!

"Alta Fidelidade" de Nick Hornby editado pela Teorema

“...as relações precisão de um empurrão...” – pág.86
“ Vai ser bom ver-te. Mas não se ela ouve as minhas...” – pág.134
“...as pessoas solitárias são as maias amargas de todas.” – pág. 138
“...diz ela, é dá uma gargalhada nervosa...” – pág. 141
”...e eu sinto-me com um ar um bocado ali sentado ao lado dela.” – pág. 155
“...fui para a cama com mais ninguém até à depois de sair...” – pág. 156
“ Tem o cabelos negros...” – pág. 158
“...cerca de um mês depois de ser ido embora...” – pág. 184
“...sentavam-se a trocar piadas em frente à televisão a trocar piadas.” – pág. 197

" O crematório fica lonje..." - pág. 213
"...tomar um copo com algumas pessoas a seguir ao trabalho em está um pouco ébria." - pág. 267

Será que despediram o revisor...



...e lhe deram emprego no 24 horas?

Cores