segunda-feira, dezembro 12, 2005

Spanish Bombs (Canção 6)

Spanish bombs, yo te quiero infinito
Yo te quiero, oh mi corazón.




Quinze anos atrás, as gravatas pretas, os alfinetes de bébe, as botas da tropa, os Clash eram o nosso futuro atrasado, o eterno fado português, dava tudo para ser eu naquela capa a partir aquele baixo! Ainda os ouço com prazer, talvez com mais prazer agora, todo o London Calling é um prazer.








sexta-feira, dezembro 09, 2005

para onde vamos

sonhei com enterros gigantescos onde a morte vestida de branca assobia entre as folhas dos carvalhos, justiça das justiças ninguém pode escapar à derradeira e única justiça da raça humana, sonhei com sepulturas em forma de cruz onde a vida dos mortos passa em sequência aleatória e onde as flores são substituídas por pilhas recarregáveis para o fluído das imagens não cessar, sonhei com velhos milionários congelados aguardando um futuro radiante para lá das estrelas envoltos em criptogénio, sonhei com gravações digitais de vidas já vividas guardadas em satélites privados em elipses à volta da terra soltando emoções e ondas moduladas sobre o planeta indefeso, sonhei contigo e por fim adormeci.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Lennon



Faz hoje 25 anos que assassinaram o meu Beatle preferido. Tinha apenas 8 anos mas lembro-me da indignação lá em casa.

quarta-feira, dezembro 07, 2005

domingo, dezembro 04, 2005

Leituras 8



Quando eu for conhecido por deter o record no guiness de comer mais páginas do dicionário alemão/russo enquanto desço e subo as escadas da torre dos clérigos montado num triciclo e um jornalista me perguntar: Quais foram os melhores livros que leu? Eu vou responder, entre mais alguns: "A Luz de Agosto". Por outro lado, ando a tentar ler "O Som e a Fúria", do mesmo autor, há dez anos.

sábado, dezembro 03, 2005

quinta-feira, dezembro 01, 2005

dia de chuva

Gotas frias escorrem pela janela embaciada. Só lhe apetece enrolar-se no sofá a ler um livro que comece assim: São ternas mas inquebráveis as raízes dos ramos que unem a nossa amizade.

alma gentil


partistes
tão
cedo desta
vida descontente.

quarta-feira, novembro 30, 2005

Norma Jean (1960)



















Vale a pena dar uma espreitadela ao site da Magnun Photos e ver Norma Jean pela lente de Eve Arnold entre outras excelentes fotos.

terça-feira, novembro 29, 2005

Vive La Fête (Grand Prix)



Vive la Fête é um projecto do ex-baixista dos dEUS Danny Mommens, com a namorada Els Pynoo.
Fez-me lembrar os anos oitenta, o que normalmente é mau para mim, é neste caso bom (quem se lembra dos The Sound?).

segunda-feira, novembro 28, 2005

linda


Naoki Mitsuse

inverno

chovia chuva fria quando prendi o cão à trela e caminhei de abas levantadas e passadas comprida, rosnei ao bicho para se despachar nos cheiros e a fugir da água do céu, vi-o ao fundo, assim, sentado na pedra húmida do parque de estacionamento embargado onde dezenas de jornais voavam à sua volta subindo e descendo em concavas espirais, subindo e descendo arrumou o cobertor debaixo das árvores e aconchegou jornais velhos junto ao corpo que tinha nos olhos a cor da geada e as mãos duras e invernosas o cão ladrou à chuva, um candeeiro intermitente lançou suspiros de luz à cidade

sábado, novembro 26, 2005

George "The" Best



"I feel I achieved everything I dreamed of as a child."
Quem me dera George, quem me dera !

sexta-feira, novembro 25, 2005

Cenas

FILOMENA: João?
RUBEN: Sim?
FILOMENA: Tive um pesadelo.
RUBEN: Anda para aqui.
FILOMENA: Fico assustada quando acordo e tu não estás a meu lado.
...
FILOMENA: Ainda me amas?
RUBEN: Claro que sim. Estava a ver um documentário sobre os campos de concentração. Coisas horríveis.
FILOMENA: Não ganhes o hábito de adormecer aqui na sala, por favor.
...
FILOMENA: Eu adoro adormecer enrolada a ti, os meus fantasmas desaparecem quando sinto a tua respiração na escuridão do quarto. É como quando era criança e o meu pai adormecia perto de mim.
RUBEN: As câmaras de gás, os comboios cheios de pessoas a esticar a cabeça para conseguirem ar e as crianças, o que mais me horroriza são as crianças, esqueléticas.
FILOMENA: Como era bom quando o meu pai me lia livros. Tu também costumavas ler para mim. Dizias que eu era preguiçosa.
RUBEN: Queres te leia alguma coisa?
FILOMENA: Agora?
...
FILOMENA: Passeávamos junto ao mar. Eu andava pelas rochas a recolher búzios e examinar poças de água, tu caminhavas pela areia molhada. Mandava-te beijos por entre as rochas, tu sorrias. Vi uma onda enorme formar-se atrás de ti, tentei chamar, gritei mas continuavas a sorrir.
RUBEN: A onda levou-me?
FILOMENA: Sim, sim.
RUBEN: Foi só um sonho.
FILOMENA: Parecia real.

quinta-feira, novembro 24, 2005

terça-feira, novembro 22, 2005

sexta-feira, novembro 18, 2005

tempo de emoções

Num segundo estilhaços. Recebemos uma frase solta como uma explosão. A boca azeda, as visceras sobem até à garganta e desejamos impotentes desfazer a boca ao destino. Num segundo apenas, podemos voltar a ter fé e entrar envergonhados numa igreja qualquer; não temos mais ninguém a quem recorrer e a razão vasculha em vão por pedaços em falta. Pecados antigos lançaram este segundo até ao futuro e agora riem das suas covas fundas. O pé cai no vazio do precipício e lá embaixo promessas que não pudemos cumprir erguem-se estridentes para nos ver tombar. Num segundo a nossa vida pode mudar para no segundo a seguir tudo mudar outra vez. Tudo que é preciso é um segundo, um roncar metálico do ponteiro do tempo. Desiludam-se todos aqueles que julgam controlar as emoções do tempo.

domingo, novembro 13, 2005

sexta-feira, novembro 11, 2005

Senhor Manel

Descobri ocasionalmente e passados quatro anos, que o merceeiro da minha rua, o senhor Manel, afinal se chama senhor Mário. Como ele nunca me corrigiu, imagino que gostava de se sentir outra pessoa, durante os breves momentos em que eu pegava no sal, no azeite e opinava sobre a jornada de futebol.

quinta-feira, novembro 10, 2005

Hoje acordei...

...com um sorriso do tamanho do mundo.

O meu coração estrebucha devagar.

terça-feira, novembro 08, 2005

45 Anos depois.



Quem conhece a obra de Hemingway ou Henry Miller, sabe que há cinquenta anos atrás, e após a libertação nazi, Paris era uma festa. Quem viu o fabuloso filme "O Ódio"(1995) de Mathieu Kassovitz, sabe o que é Paris hoje e não estranha as chamas que por lá se erguem.

sábado, novembro 05, 2005

Canções 4 e 5 (inseparáveis na minha memória)

Conheci a música Aquarela do Toquinho e Vinicius de Moraes numa colónia de férias na Foz do Arelho, para onde ia na adolescência. O meu monitor tocava-a na perfeição em guitarra clássica. Outra que tocava era, Sou caipira pira pora da Elis Regina. Ambas me marcaram para toda a vida. Quando cheguei ao Porto, comprei logo os discos com o dinheiro que tinha sobrado, guardei-os junto ao coração e lá ficaram até hoje. Fica aqui a letra de uma delas.

Aquarela

Toquinho/Vinicius de Moraes

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu
Vai voando contornando
A imensa curva norte sul
Vou com ela viajando
Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco navegando
é tanto céu e mar num beijo azul
Entre as nuvens vem surgindo
Um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo
Com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo
Sereno indo
E se a gente quiser
Ele vai pousar
Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos, bebendo de bem com a vida
De uma América à outra consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Um menino caminha e caminhando chega no muro
E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está
E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
E depois convida a rir ou chorar
Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá
Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
Que descolorirá
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Que descolorirá
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Que descolorirá

sexta-feira, novembro 04, 2005

Drag Queen

Descobri que a palavra Drag, de Drag Queen, tem origem em indicações que Shakespeare fazia aos actores. Eram as iniciais para Dress As a Girl, numa altura em não era permitido às mulheres representarem.

quinta-feira, novembro 03, 2005

Psico

Hoje uma amiga olhou para um manuscrito meu e disse que pelo género de letra, eu era uma pessoa atormentada e também um verdadeiro camaleão que me adaptava e mudava constantemente conforme as situações. Eu disse-lhe que tinha Spiders From Mars na cabeça. Ela não entendeu, eu também não.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Bifurcação

Na cidade não havia tempo para arrependimentos. Tudo corria segundo uma estranha ordem natural que era imposta às pessoas como um fardo. Alguém gritar na rua, castigo, toda a gente a olhar, alguém a fumar no autocarro, castigo, rua, ir de cuecas para o trabalho, pena, manicómio. As manhãs de Nuno não diferiam em muitas das de todas nós, o café com leite, quando ficava sem leite era chá, a preparação do cigarro para depois da paragem no café e o caminhar parcimoniosamente até à escola, onde estudava direito por obrigação familiar. Demorava cerca de vinte minutos este percurso matinal, até descobrir um mais curto com a duração de quinze minutos. Foi com o correr dos dias, variando entre os dois conforme a disposição. O caminho mais longo atravessava o centro da cidade em curvas cotovelo, descidas e subidas íngremes. Cruzava-se neste percurso com multidões de pessoas ainda atordoadas pelo relâmpago do despertador, mães desesperadas com os bebés ao colo correndo para as creches, executivos agarrados aos telemóveis, e estudantes que como ele, caminhavam com pressa ou não. Mas os mais interessantes eram aqueles que pairavam no ar, sem nenhuma marca característica, de vestuário ou atitude, largavam os passos aleatoriamente pelo passeio, com a cabeça em lugares inimagináveis; reconhecia-os pelo olhar, fixo num ponto invisível para lá do que os olhos podem alcançar. Depois havia a rapariga da pastelaria, que tinha as bolas de berlim mais recheadas de creme da cidade, que não estava incluída em nenhum dos blocos de pessoas que formava na cabeça para se entreter, mas que lhe produzia uma sensação que ia descendo pelo pescoço até ao estômago. O caminho mais curto, pelo contrário, era uma interminável avenida de semáforos tristes, de condutores agarrados a filas, com buzinas, fumos, tinta pelo ar, buracos de choques, pinças de cruzamentos e encruzilhadas com cheiro a bode velho; gostava deste caminho porque nas manhãs regadas com noites de insónias, podia facilmente caminhar com os olhos presos no chão sem motivo para os erguer, seguindo simplesmente a recta de paralelos do passeio.

terça-feira, novembro 01, 2005

The Legendary Tiger Man






















Não canta em português, nem tem nada com a nossa cultura musical popular. Mas é da melhor música portuguesa que por cá se vai fazendo. Vende com os Wray Gun discos que se fartam fora de Portugal e não lhes faltam concertos pela europa fora. Não dá na rádio, não se adequa às miseráveis playlists que por lá populam. Mais um sapo para a indústria?! musical portuguesa engolir, A Sangue Frio.

segunda-feira, outubro 31, 2005

quarta-feira, outubro 26, 2005

Porquê reciclar se nos continuam a enganar?

A reciclagem é um dever do estado, certo? Errado. Vai ser entregue a um privado, algum amigo de um secretário de estado (se não o próprio secretário de estado). Os anúncios da reciclagem foram pagos pelo privado? Errado. Os anúncios da reciclagem foram pagos por todos nós.
Para quê reciclar, se algum tubarão vai ganhar 2.000 contos por mês e pagar aos seus empregados o ordenado mínimo? Para quê?
Ecologia social era bem mais essencial.

terça-feira, outubro 25, 2005

segunda-feira, outubro 24, 2005

Encruzilhada

A minha vida está numa autêntica encruzilhada. Muitas mudanças e decisões num curto espaço de tempo. O diabinho do meu ombro direito anda em acesa discussão com o anjinho do ombro esquerdo.

sábado, outubro 22, 2005

sexta-feira, outubro 21, 2005

Sem paciência

É verdade, e sem tempo...

terça-feira, outubro 18, 2005

segunda-feira, outubro 17, 2005

Mudar de vida

Mudei pela décima vez de vida mas agora cada mudança acarreta um cansaço cada vez maior.

sábado, outubro 15, 2005

Joana

Vi-a durante semanas a fio de olhar suplicante. Andava depressiva e sem humor arrastando os ossos pelas ruas da cidade. Até ao dia em que entrou no autocarro com um confortável casaco castanho que lhe assentava na perfeição. Imaginei-a trocando o antigo na casa de banho do shopping para não parecer mal sair da loja com ele vestido. Ficou de repente viva, um novo eu, olhar radiante e luminoso, era uma segunda pele que tinha agora vestida, uma nova identidade, uma camuflagem protegendo a alma, longe desses problemas mesquinhos.

sexta-feira, outubro 14, 2005

Harold Pinter

"Não consigo resumir nenhuma das minhas peças. Não consigo descrever nenhuma. O que sei é dizer: foi assim que se passou, foi isto o que disseram, isto o que fizeram."
Harold Pinter
É um dos meus dramaturgos contemporâneos predilectos juntamente com Beckett e Israel Horovitz, fiquei pois contente por lhe ser atribuído o Nobel da Literatura. Existe um livro da Relógio D'Água com peças traduzidas, editado em parceria (penso estar a dizer a verdade), com os Artistas Unidos, que encenaram grande parte das sua obras em Portugal, aliás, Jorge Silva Melo, director dos Artistas Unidos (diga-se em abono da verdade o grande divulgador do obra de Pinter neste jardim), comprou os direitos de todas as suas obras para Portugal. O livro tem sete peças escritas entre 1957-1964, que são: O Quarto; Feliz Aniversário; O Serviço; O Encarregado; A Colecção; O Amante; Regresso a Casa. Vale a pena ler, sinto no ar reposições, já que encenado só em Lisboa.

quarta-feira, outubro 12, 2005

Canções 3

Talvez doze, treze anos atrás, andava eu de guitarra às costas a tocar com um grupo de amigos onde nos deixassem; a nossa bateria era uma tarola e um prato de choques porque o baterista andava a comprar o material às prestações. Um desses locais peregrinos era a antiga sede da JCP na Avenida da Boavista. Bebiamos cerveja de graça e tocávamos umas versões (Echo And The Bunnymen, The Cure, Joy Division, Bauhaus, Jesus and the Mary Chain, Peter Murphy etc...), uma das quais era o Strange Kind Of Love do Peter Murphy. Foi uma das primeiras canções que toquei realmente bem. Já mais tarde, num bar de amigos, essa música era a primeira que me pediam para tocar quando o bar "fechava"; essa e o Ziggy Stardust, mas isso é outra história. Foi ao som desta música que conheci a minha namorada, mãe da minha filhota. Ainda mais tarde, vi o Peter Murphy no Coliseu do Porto a tocar essa canção com uma guitarra de doze cordas, então pensei, esta música é tanto dele como minha.


A Strange Kind Of Love

A strange kind of love
A strange kind of feeling
Swims through your eyes
And like the doors
To a wide vast dominion
They open to your prize

This is no terror ground
Or place for the rage
No broken hearts
White wash lies
Just a taste for the truth
Perfect taste choice and meaning
A look into your eyes

Blind to the gemstone alone
A smile from a frown circles round
Should he stay or should he go
Let him shout a rage so strong
A rage that knows no right or wrong
And take a little piece of you

There is no middle ground
Or that's how it seems
For us to walk or to take
Instead we tumble down
Either side left or right
To love or to hate

terça-feira, outubro 11, 2005

Leituras 7



O mais certo é eu já ter lido estes contos todos. Mas quando passei pelo alfarrabista e o vi na montra a olhar para mim pela lombada, como quem diz de esgueira, não resisti e além disso, o cheiro do papel velho entusiasma-me, para não dizer que me excita. Dois euros foi o preço.

domingo, outubro 09, 2005

Vindima (três jovens agricultores)


A apreensão no horizonte, seis da manhã em Portugal continental; no que me fui meter!


O meu irmão ainda com o ritmo da noitada; gosta de drum´n´bass e ainda não gosta de vinho.


O meu pai com um brilho nos olhos: "Talvez já dê uns duzentos litritos." Eu com um brilho nos olhos.


O número 10, o homem da terra. Em miúdo brincava as escondidinhas no meio das vides, não era como eu em telhados de fábricas.

sexta-feira, outubro 07, 2005

Eu Sou Concerteza Mais Do Que Tu

Boa tarde Senhor Doutor, Boa dia Senhora Doutora, Boa noite Senhor Professor Doutor, Boa dia Senhora Juíza Embargadora, Boa tarde Senhor Doutor Não Sei De Quê, Bom dia Senhora Doutora Prefácio e Posfácio, Boa madrugada Senhor Arbitro, Boas Senhor Esmerado e Doutorado Presidente de Câmara, Boa noite Senhor Doutor Mestrado Construtor Civil, Boa dia Senhor Professor Doutor Porche Booster com vivenda com piscina, Boa noite Senhor Doutor Herdade no Alentejo.

Este país arrepia-me.

quinta-feira, outubro 06, 2005

33, diga lá outra vez!

É um facto consumado, tenho 33 anos desde as seis da tarde de hoje. Cheguei mais ou menos ao meio do percurso de alguém que não trata o corpo como devia. Olhando para trás em jeito de reflexão, tenho vontade de rir o que convenhamos não é de todo uma coisa negativa. Mas ando cada vez mais com a cabeça no passado. O que poderia ter acontecido se? E se? Será esta constante introspecção a badalada Mid-Life Crisis? A música dos Faith No More não me sai da cabeça. Olho para a minha menina e interrogo-me até quando vou vê-la crescer? Olho para os meus pais e apetece-me abraça-los com força, por coisas que nem consigo explicar. Olho para os meus amigos e ainda os vejo de calções de fato de banho até ao joelho e uma volta prateada no peito (na altura usava-se), para impressionar as miúdas na praia. Lembro-me de jogos de futebol, três contra três, com pedras a servir de balizas, mais importantes que finais europeias, queria jogá-los novamente. Os meus amigos, são quase todos os mesmos e como eu, têm brancas matreiras que povoam o cabelo. Recordo nestas alturas as pessoas que amei e que já não povoam o planeta terra. Depois olho novamente para a minha menina, afasto fantasmas e mostro o peito ao futuro.

quarta-feira, outubro 05, 2005

Cinemascópio - Ciclo: "Terra, Suor e Lágrimas"

SESSÃO DE SEXTA-FEIRA 7 OUTUBRO - 21H45

Auditório do Círculo Católico de Operários do Porto
Rua Duque de Loulé, 202
ENTRADA GRÁTIS


OS RESPIGADORES E A RESPIGADORA de Agnés Varda
(Les Glaneurs et la Glaneuse, França, 2000, 82min.)


"É um filme que nasce de uma espécie de movimento de improviso - foi assim, aliás, que quase sempre nasceu o "documentário" na obra de Agnès Varda. E como esse movimento é importante, o filme incorpora a sua assumpção: "Les Glaneurs" auto-explica-se, quanto à sua génese, quanto às suas intenções, quanto ao aproveitamento de pequenos acasos (pequenas "coisas inúteis", diria Varda) de onde alguma coisa pode nascer.
Se, tendo como motivo visual um célebre quadro de Millet, o filme é sobre os "respigadores" do final do século XX (e sobre o que é que se "respiga" no final do século XX), a glaneuse é a própria Agnès Varda, a recolher imagens, lugares, pessoas ideias, e a fazer desse trabalho de recolha a matéria essencial do seu filme. O que conta é a perscrutação do real, a confiança nas suas próprias capacidades de uma "auto revelação" mais ou menos poética – foi um pouco isto que Varda sempre fez no documentário, talvez por herança da sua formação enquanto fotógrafa, e "Les Glaneurs...", muito por se construir sobre resíduos e "sobras", até permite o reenvio para L'OPERA MOUFFE, uma das suas primeiras curtas-metragens, e um título emblemático na definição da sua relação com o real.
Mas se é um filme sobre os "outros", de acordo com a "escola da modéstia" que o documentário é para Varda (servindo para revelar "o melhor que há nas outras pessoas), também é um filme sobre a própria autora, incapaz de se excluir dele. Sem querer forçar o auto-retrato, "Les Glaneurs" integra, de forma por vezes plenamente lúdica, um esboço de reflexão sobre o "aqui e agora" de Varda.
Daí resulta uma tensão que fornece enorme energia ao filme: a cineasta exibe a sua velhice, filma as suas mãos que a avisam de que " cesta bendito la fina"; mas como, por enquanto, "li Fiat prender la reate", "Les Glaneurs" é uma pequena celebração da vida, da acção e da liberdade. Que poderia ter o seu símbolo naquela pequena câmara vídeo e no modo como Varda se diverte a aprender a trabalhar com ela."


Luis Miguel Oliveira, Público, 17.11.00


Iniciativa:

ASSOCIAÇÃO PINTAR o 7
CinemaCidadeCultura


PRÓXIMA SESSÃO: SEXTA-FEIRA, 14 DE OUTUBRO – 21H45
"RIFF-RAFF" de Ken Loach

terça-feira, outubro 04, 2005

União Zoófila (recebido por e-mail)

A União Zoófila está na eminência de FECHAR. A primeira medida é despedir a pessoa que cozinha para os animais diariamente, já no fim deste mês. Como sabem, é uma instituição que vive essencialmente da quotização dos sócios e até esses deixaram de pagar. Eles são 800 cães e não sei quantos gatos. Então aqui vai o meu apelo: Eles necessitam de comida para os animais, sobretudo de secos para os cães. Solicitaram que cada pessoa leve um saco, para poderem "manter o barco". Claro, que o dinheiro também ajuda, mas se quiserem, convertam-no em COMIDA! . Façam chegar este e-mail aos Directores de Redacção, ou a quem achem mais apropriado, para que todas as revistas e jornais FALEM DESTE ASSUNTO. Uma boa reportagem, em todos os meios, dava certamente mais impacto e ajudava a dar a conhecer as dificuldades da UNIÃO ZOÓFILA. Acredito que não estavam à espera deste "press release", mas façam circular este e-mail (não se ofereçem telemóveis nem viagens), pois estamos convencidos que vamos conseguir entre todos, contar SEMPRE com a UNIÃO ZOÓFILA para acolher os "nossos" bichinhos.

sábado, outubro 01, 2005

Eu Clandestino

Vivo no maior condomínio privado do mundo
Neste mar imenso de prosperidade e riqueza,
Mas não suporto o deformado rosto no espelho,
Que é o da minha própria avareza.

Nas fronteiras, antes aventura,
Nasce agora o arame farpado o betão,
Onde um cartaz pintado de fresco anuncia
Não há lugar para mais nenhum.

Não nasci clandestino
Porque quando a roleta girou,
Para este lado me lançou.

Do outro lado espreitam,
Olhos de esperança e fome,
Milhões de rostos sem nome.

sexta-feira, setembro 30, 2005

Mestrado em Arrotos

Não pensem que é só encostar peito com peito e esperar. Isto dos arrotos da minha filha tem muito mais que se lhe diga. É umas palmadinhas nas costas, uma ligeira pressão no abdómen, um beijinho na cabeça, umas palavras de incentivo. Existem diversas técnicas explicadas por doutorados no assunto, ou seja, pais já formados no primeiro ano de vida dos seus rebentos. Alguém me dizia que tinha de balouçar um bocadinho para o ar subir, um amigo explicava que deitar o bebe um bocadinho de peito para baixo, ajuda também o excesso do ar a sair do estômago e ser expelido pela boca. Várias técnicas me foram aconselhadas nestes dois meses e meio, mas como manter o sangue frio às quatro da manhã e depois de meia hora de diversas manobras e sabendo que às oito e meia estamos a pé, isso, ninguém consegue explicar; deitamos a pequena ou aguardamos mais uns segundos porque o arroto deve estar mesmo a chegar? E se não chega? Este texto é uma tese de mestrado em arrotos, por também eu, já vou a caminho e a passos largos, para o doutoramento no arroto rápido e limpo.

quinta-feira, setembro 29, 2005

...e mudemos de assunto.

Quando o treinador do Porto diz na conferência de imprensa antes do jogo com o Artmedia, que o Porto vai jogar à Porto, vê-se claramente que não entende o significado jogar à Porto. O F.C.Porto, e desde que a minha memória me consegue transportar, sempre foi uma equipa de sangue, suor e lágrimas. Não estamos habituados a vitórias morais, a jogar melhor do que o adversário e perder, em Portugal essa forma de estar pertence ao Sporting.
Todos os treinadores de sucesso no Porto que vão desde o Pedroto, Artur Jorge, Fernando Santos e acabando no Mourinho, formaram grandes equipas que sempre começaram de trás: Geraldão, Celso, Lima Pereira, Fernando Couto, Jorge Andrade, Jorge Costa, Ricardo Carvalho, são exemplos de centrais que fizerem parte das grandes equipas do Porto. Rodolfo, André, Jaime Pacheco, Paulinho Santos e Costinha são exemplos de trincos que deixavam tudo em campo, num esforço de dragão que empolgava as bancadas das Antas. Este sempre foi o segredo do Porto para conseguir ombrear com as equipas de Lisboa, a dedicação e o esforço que em alturas se confunde com o granito da cidade.
O Porto joga hoje à Barcelona de Cruyft e Van Gaal, mármore polido, o que devo dizer é o futebol mais bonito que até hoje vi. Não tenho dúvidas que o Porto vai ganhar o campeonato português, porque o plantel é o melhor a nível nacional e as equipas portuguesas defendem atrás do meio campo e sempre de olho no ponto, que se torna muito difícil arrancar, devido ao fluxo de ataques e oportunidades que o Porto cria.

quarta-feira, setembro 28, 2005

No comments

“We play very well”, disse o treinador do Porto depois do jogo com o Artemedia.
Será que algum portista quer saber disso para alguma coisa?

terça-feira, setembro 27, 2005

Canções 2

Ouvi pela primeira vez os Sex Pistols na defunta discoteca Tubitek na Praça D.João I. Não andava à procura de nada em especial quando lá entrei, era apenas um sítio onde tinha de ir sempre que passava na baixa, quanto muito para ver a montra dos discos importados. Naquele dia entrei e a capa, exposta na montra, logo me chamou atenção com aqueles recortes aparentemente colados à sorte. Pousei então a agulha no God Save The Queen e aos primeiros acordes levei um murro no estômago, muito semelhante, se transpusermos a sensação para a literatura, quando em casa do meu tio abri a Metamorfose e li: “Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si transformado num gigantesco insecto.” A música nada tinha a ver com as canções de protesto de Bob Dylan, nem com a metafísica dos Pink Floyd e muito menos com a melancolia e angústia da cena britânica dos Echo and the Bunnymen, Bauhaus ou Joy Division que eu tanto gostava. Aquilo era mais um manifesto, uma cuspidela para o ar, um chuto nos tomates, um não quero saber gritado a plenos pulmões. Estou a ouvir agora, depois de muitos anos o God Save The Queen e confesso que o “No Future For You”, gritado pelo Jonnhy Rotten continua a bater-me no estômago agora como na altura.
"God Save The Queen"
God save the queen/The fascist regime/They made you a moron/Potential H-bomb/God save the queen/She ain't no human being/There is no future/In England's dreaming/Don't be told what you want/Don't be told what you need/There's no future, no future,/No future for you/God save the queen/We mean it man/We love our queen/God saves/God save the queen'/Cause tourists are money/And our figurehead/Is not what she seems/Oh God save history/God save your mad parade/Oh Lord God have mercy/All crimes are paid/When there's no future/How can there be sin/We're the flowers in the dustbin/We're the poison in your human machine/We're the future, you're future/God save the queen/We mean it man/We love our queen/God saves/God save the queen/We mean it man/And there is no future/In England's dreaming/No future no future/No future for you/No future no future/No future for me/No future no future

domingo, setembro 25, 2005

De Cara Lavada

FORÇA POETA

sábado, setembro 24, 2005

O palácio (primeira versão final)

O Palácio Botelho herdou o nome do seu mais famoso inquilino, o Conde Botelho. O conde foi o último dos grandes boémios portugueses que o século XIX conheceu. O palácio deve igualmente ao conde o seu grande apogeu ocorrido nas últimas décadas do século XIX e inícios do século XX. Nessa altura os jantares eram iluminados por candelabros de Paris e incenso da Índia e pelos sumptuosos salões, políticos faziam politica enquanto namoriscavam donzelas ao som das valsas de Strauss. Era o local portuense onde as soirres eram mais sofisticadas e desejadas. Pelos portões dourados, magnificentes coches de seis cavalos trotavam ocultando os seus ilustres convidados. Já em pleno século XX, o palácio, viria a conhecer uma lenta degradação, abandono e por fim o esquecimento, tudo em parte pela ruína financeira do conde que não entrou no século novo com tinha saído do antigo.
Quando foi comprado ao estado pela construtora Alves & Alves Lda., um século depois do conde, o palácio estava velho, o telhado desfazia-se pelas intempéries, as paredes bamboleavam ao sabor dos camiões que atravessavam a rua e pedras seculares desmaiavam pelos cantos das salas do segundo andar, só recordando os tempos áureos, a alguém com uma imaginação muito fértil. Mas a zona onde estava situado, a enormidade do terreno que ocupava e a beleza exterior do edifício, fez dele um negócio apetecível que os gémeos da Alves & Alves, não deixaram escapar; só a fachada restaria do palácio e falou-se em condomínio fechado com garagens individuais e piscina. Este episódio tinha ocorrido há quase três anos, escritura, papéis assinados, licença de obras, tudo arrastado até ao início da reconstrução que começou há uma semana com uma limpeza interior. Contratou-se uma empresa para retirar entulho, arrebentar soalhos, raspar paredes, arrastar móveis e começar desde já a deitar abaixo algumas paredes que não implicassem a sustentabilidade do edifício. Tudo corria bem até os trabalhadores contratados se começarem a queixar dos exércitos de pulgas aranhas ratos que trepavam pelas pernas e se infiltravam na roupa interior, causando comichões vermelhões irritações e sabe-se-lá-que-mais, obrigando-os a tirarem a roupa cinco vezes por dia e procurar os desagradáveis bicharocos nas cuecas meias e virilhas. Contactou-se uma empresa de desinfecção e este vosso humilde narrador e escriturário da Alves & Alves, foi a pessoa encarregada de abrir as colossais portas de dois metros e meio em madeira maciça ao exterminador, já que por esta altura o pessoal contratado se recusava, alegando saúde pública e privada, a por lá os pés até a situação estar controlada e um perímetro de segurança levantado.
A construtora Alves & Alves foi criada no início do século XX pelo avô dos actuais gémeos Alves, se bem que no início se chamasse Construtora & Imobiliária Alves Lda. e fosse apenas um pequeno escritório no centro da cidade. A firma expandiu-se durante a segunda metade do século passado graças ao seu grande impulsionador, o pai dos gémeos, que elevou a firma até um décimo andar num prédio da zona mais cara da cidade; não posso esquecer de falar no meu pai. Hoje em dia são os gémeos que gerem a firma. E que posso eu dizer dos gémeos da Alves & Alves L.da? Que os odeio? Odeio-os? Mas porquê? Agora sim, pelo meu pai? Por mim? Será pelo meu pai que morreu com sessenta e oito anos de ataque cardíaco cercado de contratos imobiliários sem nunca lhe ser reconhecido o mérito? Que morreu sozinho na secretária que ocupou durante meio século, não sem antes arranjar trabalho para o alienado filho? Que odeio os gémeos, o seu jeito superior, os fatos garridos pirosos, os carros e as mulheres deles? Que desprezo os gémeos pela minha mãe e pela minha irmã? E que posso mais dizer sobre os gémeos? Que são diferentes um do outro como água do vinho? Que um é gordo e o outro é magro, um forte outro fraco? Que o gordo empurra o fraco e o magro acolhe o forte? Que funcionam em cunha? Posso começar por dizer que fisicamente nada têm de semelhantes. Poderia também dizer que ambos têm à sua maneira o dom da multiplicação do dinheiro e tal Midas, o fardo de transformarem em ouro tudo que tocam. Poderia satisfazer o meu asco e dizer que o ouro resvala para a merda como o milho para estrume? Não, não me quero alongar em afrontas e insultos. Vou então, e só para terminar e passarmos sem demorar para a porta do palácio, onde aguardo o exterminador, dizer que nada do que vos contei, me iliba do fim desta história, nem é por si só factor justificativo das acções que a seguir vou narrar; sei-o agora enquanto escrevo.
Espreitei pelas escadas, não vi nenhum sinal do exterminador, subi dois andares e não acreditei no que os meus mostravam. Mas estou a adiantar-me na história, está-se a tornar num hábito esta ânsia de tudo revelar. Tenho de serenar, não posso omitir nenhum dos factos importantes, dados reveladores, informações fulcrais. Volto então à porta do palácio onde o exterminador acaba de chegar. É um homem gordo com a barba por fazer uma camisa desabotoada pelo terceiro botão um cheiro agridoce de suor seco. Cumprimentamo-nos e logo começou a falar: “Isto é muito grande, vai precisar de cinco ou seis passagens.” Abro as portadas, deixo-o palrar. “Isto dos bichos tem que se lhe diga.” ”Eles sabem quem eu sou, já me conhecem”. Pousa no chão uma botija à qual prende duas mangueiras entrelaçadas. “Tenho de fazer a mistura, o segredo está na mistura, dez de água para uma dose de veneno.” Desculpei-me e sai coçando as canelas, ele lá ficou a esguichar os cantos. “Duas horitas”, disse. Comprei o jornal e sentei-me num banco de jardim a desfolhar as páginas. Para Novembro o dia estava bem solarengo; ao fundo do jardim duas crianças corriam atrás de um cão sorridente.
Acordei sobressaltado com um arrepio na espinha, uma hora e meia tinha passado. Decide voltar ao palácio para ver como ia o trabalho de extermínio. Quando abri a porta não ouvi o zumbido da máquina que misturava a água com o veneno. Subi ao primeiro andar e nem sinal do exterminador. As escadas rangiam a cada passo e comecei a sentir comichões nas costas. Gritei, mas só a minha voz e depois o eco da minha voz rompeu o silêncio. Virei pelo corredor que ficava do lado direito de quem sobe as escadas; um velho candelabro balouçava no tecto. Abri a primeira porta do lado esquerdo e nada, tirando um velho colchão encostado numa parede onde as traves de madeira espreitavam. Continuei a andar mas os bichos invadiam a minha roupa interior e a comichão era quase insuportável. Cheguei ao fim do corredor e abri a porta; uma velha cómoda tapava a janela e um velho retrato envolto em teias de aranha, sufocava num caixilho dourado demasiado grosso. Comecei a correr de volta às escadas. Gritei. Ganhei coragem para subir ao segundo andar. Agora o meu corpo era um amontoado de bichos que me cercavam e comiam. Abri a primeira porta que encontrei na esperança de encontrar uma janela. Gritei. Ele estava caído no chão, mas não o conseguia ver, tal era a quantidade de percevejo, mosquitos, aranhas, pulgas, amontoadas sobre o deformado cadáver. Gritei por ele e depois corri pelas escadas abaixo. Passei as mãos pela cara e uma quantidade de bichos caíram e logo se esconderam em recônditos buracos, à medida que descia, fui deixando roupa pelo caminho. Uma escada não aguentou a meu peso desesperado e cedeu por baixo do meu pé que ficou preso. Estava deitado no chão com a cara no soalho e via os bichos a aproximarem-se com as suas pequenas tenazes. Tentei soltá-lo. Fiz mais força e a madeira cedeu rasgando uma boa parte da minha canela. Esfreguei o cabelo até ao átrio. Abri a porta da rua e sai para a rua, ainda sacudindo a roupa que me restava. Os insectos não pareciam interessados na luz do dia e vi-os a fugir por baixo da porta para o negrume do palácio.
O exterminador estava morto. Não tive culpa como podia eu saber? Foi no meio desse reboliço cerebral, que a ideia surgiu. Peguei no telemóvel e telefonei aos gémeos. Argumentei que ambos tinham de vir porque o futuro do empreendimento dependia da sua presença e disse mais algumas coisas que tinha a certeza os convenceria. Fui ao café, tirei a roupa na casa de banho e esmaguei com raiva alguns insectos desprevenidos. Voltei à porta do palácio e aguardei uma meia hora até o Mercedes parar em frente. “Que urgência é essa?”, “Não consegue resolver nada?”, “E para isso que lhe pagamos?”. O exterminador queria falar com eles, disse, estava no terceiro andar. “Temos de subir lá em cima? Ele não pode vir cá em baixo?”, “Quer mais dinheiro de certeza, o gajo quer mais dinheiro!” Encolhi os ombros. Eles entraram. Ainda ouvi os seus resmungos e os passos pelos lanços das escadas. Esperei mais dois minutos e fechei o palácio às chaves. Depois apanhei o autocarro para casa de onde agora escrevo esta história. Tomei um banho, fechei as persianas e arranjei uma desculpa para a mulher. Não sei se ainda estão vivos, não sei de nada e não vou sair de casa para descobrir, pelo menos até alguém bater à porta e disser que existe esperança para mim.

sexta-feira, setembro 23, 2005

Immigration Song

Estou a entrar em pânico. A maior parte dos meus amigos está a partir ou já partiu. Inglaterra principalmente, mas também Holanda. Quando voltam encontram os mesmos bares, as mesmas diversões, a mesma gente a remar contra correntes fortes demais, o mesmo paralelo gasto, as mesmas calçadas castanhas. Todos sabemos que micros ditaduras governam este país, mas não será assim por essa Europa fora? O que nos leva a ficar? Porque carga de água insistimos em viver aqui? Será o sol? Os amigos e familiares? A língua? A velhice das casas e as ruas sujas? O desemprego, o emprego? Eu não consigo partir e meti na minha cabeça que talvez terá a ver com os portugueses. Mas não deixo de ficar em pânico por doar o melhor que temos a outros países.

quinta-feira, setembro 22, 2005

Beatriz

A verdade é que passei os meses mais felizes como estudante, na companhia de uma franzina e tímida rapariga vinda do sul do país; chamava-se Beatriz, tinha um cabelo comprido que escorria pelas faces até aos ombros e um olhar contemplativo que quando se abria em sorriso, era um relâmpago, uma obra de arte; curvas anárquicas das borboletas quando saem do casulo. Andamos colados alguns meses, sem nada nem ninguém entrar no nosso mundo de felicidade. Fazíamos tudo juntos. Foram meses de alegria e amor desenfreado. Depois não sei ao certo o que aconteceu.

quarta-feira, setembro 21, 2005

Maria

Quando chegava a primeira semana de Novembro, Maria metia férias, fechava-se em casa e acendia dezenas velas que ia acumulando ao longo do ano e espalhava-as pelo chão, beirais das janelas e no topo dos armários; eram velas em forma de bola com um pequeno pavio indiano, velas quadrados azuis, velas em forma de cilindro, velas iguais a velas. Encharcava depois a casa de paus de incenso com cheiro a mar, mirra e canela. Cada chama um nome cada incenso um livro cada memória um trago de fumo cada amigo uma luz. Depois concentrava-se, apenas nessa semana do ano, no pensamento que mais a atormentava e então sussurrava às escuras: toda a gente que conheço e amo vai desaparecer um dia, tudo que conheço vai desaparecer, nada é eterno, vale a pena aguardar mais mortes amigas? Alguns dias mais tarde e quando da escuridão de sombras provocadas pelas chamas, sentia o medo a desaparecer, Maria apagava as chamas, abria todas as janelas de casa, abafava os incensos e retomava a vida mais optimista.

segunda-feira, setembro 19, 2005

As corridas dos meus dias

Às vezes a minha vida é uma pista de carros e eu um carrinho de choque que em círculos loucos e rápidas manobras de volante, tento a todo o custo desviar dos obstáculos que lhe aparecem à frente, mas por muito que tente, não consigo nunca evitar algumas colisões frontais, saídas de pista, andar em duas rodas e as fichas não duram para sempre e não sei quê, não sei que mais.

domingo, setembro 18, 2005

sábado, setembro 17, 2005

Canções

LEONARD COHEN - "Sisters Of Mercy"

Oh the sisters of mercy, they are not departed or gone.
They were waiting for me when I thought that I just can't go on.
And they brought me their comfort
and later they brought me this song.
Oh I hope you run into them, you who've been travelling so long.
Yes you who must leave everything that you cannot control.
It begins with your family, but soon it comes around to your soul.
Well I've been where you're hanging,
I think I can see how you're pinned:
When you're not feeling holy, your loneliness says that you've sinned.

Well they lay down beside me, I made my confession to them.
They touched both my eyes and I touched the dew on their hem.
If your life is a leaf that the seasons tear off and condemn
they will bind you with love that is graceful and green as a stem.

When I left they were sleeping, I hope you run into them soon.
Don't turn on the lights, you can read their address by the moon.
And you won't make me jealous if I hear
that they sweetened your night:
We weren't lovers like that and besides it would still be all right,
We weren't lovers like that and besides it would still be all right.

sexta-feira, setembro 16, 2005

Always

Running away,
Running away,
Running away,
Like I normally do.

Running away,
Running away,
Running away,
Till I find you.

When I get scar,
And I get scar,
Hell screaming for me,
You’re always there.

Always there,
When my ghost came around,
I feel like a good man,
And I don’t get scar.

quinta-feira, setembro 15, 2005

quarta-feira, setembro 14, 2005

Restos (IV)

Dr.º Albino não era um homem vulgar. Não despertava com o canto dos galos, nem se deitava quando a noite se ergue. Os seus horários eram de todo estranhos para a gente da aldeia; ora se deitava de madrugada, ora se erguia com a noite, ora ouvia música aos gritos em pleno breu, ora silêncio durante dias. Por estes motivos, mas principalmente devido ao seu feitio irascível, Dr.º Albino conseguia afastar dele todas as curiosidades que despertam um homem só, numa aldeia triste e sem grandes novas para mexericos. Mesmo assim, comentava-se na tasca à boca larga, por entre um copo de vinho e uma partida de sueca, que Dr.º Albino era viúvo e amava demais a falecida, daí o seu isolamento e retiro, daí as suas atitudes incompreensíveis e até brutais; toda a gente se recorda como se fosse hoje, o dia em que correu o carteiro do consultório, o João Silva, filho da Amelinha, com gritos de espírito em purgatório, recusando uma falsa baixa. As mulheres temerosas a deus, viam no doutor uma reencarnação do mal, e a prova diziam entre elas, eram as fracas colheitas desde que aquele homem tinha chegado à aldeia, a falta de chuva e os incêndios e só empurradas punham o pé no consultório. As moças porém, encontravam algo de atraente no jovem doutor e até tentavam, de tempos a tempos, uma aproximação que sempre passava despercebida ao doutor. Outra corrente era a que dizia tratar-se de um caso de medicina mal exercida, com o nome riscado na cidade, tinha fugido para o interior e daí recomeçar a vida; esta era a que menos adeptos recolhia mas mesmo assim com algum peso na comunidade, bastava observar o respeito reverencial dos vizinhos quando se cruzavam com ele na rua.

terça-feira, setembro 13, 2005

Leituras 6 (Os meus Prémios Nobel)



Escolhi o que tem a capa mais bonita e o último que li. Podia ser “O chão que ela pisa”, o que mais gostei, ou “A Fúria”, o que mais me surpreendeu. Cada livro de Salman Rushdie é uma viagem aos entrocamentos da condição humana e abrir a primeira página de um livro seu, é iniciar uma viagem que não sabemos onde vai terminar; talvez nunca termine dentro dos leitores. Um mestre das palavras, um encantador de serpentes.

segunda-feira, setembro 12, 2005

DIRQUE - "Novo Circo" em Vila do Conde


CORDA-BAMBA apresenta

DIRQUE - “Novo-Circo” em Vila do Conde

Uma mistura bem doseada de técnicas de circo de alto nível, com improvisação e humor

No contexto do desenvolvimento das artes do circo, foi recentemente criada a associação “Corda-Bamba – Centro para as Artes do Circo” cujo objectivo é desenvolver um trabalho de formação e criação em torno do circo contemporâneo.
Da intervenção deste projecto, resultarão workshops para jovens e a apresentação de espectáculos que irão fortalecer e projectar as dinâmicas culturais locais e nacionais em torno destas formas artísticas. Como primeira iniciativa e com o apoio da Câmara Municipal de Vila do Conde a “Corda-Bamba” apresenta o artista belga Dirk Boxelaere.
Após uma formação intensiva nas escolas de circo de Bruxelas e de Montreal, depois de ter viajado pelo mundo inteiro com o duo cómico “To Be 2” Dirk Boxolaere, mais conhecido por “Dirque” apresenta dia 12 nas Alamedas dos Descobrimentos e dia 13 no Parque Polis – João Paulo II, às 22h00, o seu novo trabalho Tai-Toi et Jongle!.
Sobre uma pista redonda, Dirk impressiona com o seu humor inenarrável e com acrobacia e jogos de malabarismo originais. Através das suas intervenções espontâneas e de uma enorme cumplicidade com o público, Dirk “despe-se” para oferecer um espectáculo surpreendente.
Para crianças e adultos.
A não perder

domingo, setembro 11, 2005

Televisão, a droga da nação*

Hoje assisti incrédulo e impotente à humilhação de um homem sensaborão, um metálico de primeira, Harley Davidson e cabelos até à cintura incluídos, enquanto era transformado num corrector de seguros de terceira qualidade.
*Television the drug of the nation (The Disposable Heroes of Hiphoprisy)

sábado, setembro 10, 2005

Old Timer

O meu vizinho de oitenta e dois anos disse, enquanto eu o ajudava a empurrar a cama para a frente e comentava a extensa colecção das Selecções Readers Digers: “Os Portugueses são um povo formidável! Sabia que no Japão os taxistas se souberem que é português vão a correr abrir-lhe a porta? Era-mos um povo respeitado e respeitoso. Hoje em dia tudo se deve aquele, como se chama, antes do vinte cinco de Abril?
“Marcelo Caetano?”
“Não o outro.”
“Salazar?” Indignei a medo, e então parecia que tudo ia desemborcar na lenga-lenga dos velhotes. Mas não, pois ele Sereno disse: “Sim, foi esse bandalho
que obscureceu Portugal”.

sexta-feira, setembro 09, 2005

quinta-feira, setembro 08, 2005

O palácio (Work In Progress) 7

Mais um parágrafo que precisa de uma segunda de mão.
"Primeiro foi o grito atordoado, depois um som ressoou nos meus ouvidos, tipo chapada em bochecha rosada. Espreitei pelas escadas, não vi nenhum sinal do exterminador. Mas estou a adiantar-me na história, está-se a tornar num hábito esta ânsia de tudo revelar. Tenho de serenar, não posso omitir nenhum dos factos importantes, dados reveladores, informações fulcrais. Volto então à porta do palácio onde o exterminador acaba de chegar. É um homem gordo com a barba por fazer uma camisa desabotoada pelo terceiro botão um cheiro agridoce de suor seco. Cumprimentamo-nos e logo começou a falar: “Isto é muito grande, vai precisar de cinco ou seis passagens.” Abro as portadas, deixo-o palrar. “Isto dos bichos tem que se lhe diga.” ”Eles sabem quem eu sou, já me conhecem”. Pousa no chão uma botija à qual prende duas mangueiras entrelaçadas. “Tenho de fazer a mistura, o segredo está na mistura, dez de água para uma dose de veneno.” Ele lá ficou a esguichar os cantos. Eu fui comprar o jornal e tomar café, não sem antes sentir umas picadas e comichões na zona da canela."

quarta-feira, setembro 07, 2005

terça-feira, setembro 06, 2005

O palácio (Work In Progress) 6

Este parágrafo anda emperrado, está a ser dificil descobrir o fio condutor, além de que o tempo não é muito. Mas aqui vai mais uma revisão que não será a última. Vou entretanto seguir em frente (já que o final conto me ocorreu) para ver se descubro o que falta atrás.
"A construtora Alves & Alves foi criada no início do século XX pelo avô dos actuais gémeos Alves, se bem que no início se chamasse Construtora & Imobiliária Alves Lda. e fosse apenas um pequeno escritório no centro da cidade. A firma expandiu-se durante a segunda metade do século passado graças ao seu grande impulsionador, o pai dos gémeos, que elevou a firma até um décimo andar num prédio da zona mais cara da cidade; não posso esquecer de falar no meu pai. Hoje em dia são os gémeos que gerem a firma. E que posso eu dizer dos gémeos da Alves & Alves L.da? Que os odeio? Odeio-os? Mas porquê? Agora sim, pelo meu pai? Por mim? Será pelo meu pai que morreu com sessenta e oito anos de ataque cardíaco cercado de contratos imobiliários sem nunca lhe ser reconhecido o mérito? Que morreu sozinho na secretária que ocupou durante meio século, não sem antes arranjar trabalho para o alienado filho? Que odeio os gémeos, o seu jeito superior, os fatos garridos pirosos, os carros e as mulheres deles? Que desprezo os gémeos pela minha mãe e pela minha irmã? E que posso mais dizer sobre os gémeos? Que são diferentes um do outro como água do vinho? Que um é gordo e o outro é magro, um forte outro fraco? Que o gordo empurra o fraco e o magro acolhe o forte? Que funcionam em cunha? Posso começar por dizer que fisicamente nada têm de semelhantes. Poderia também dizer que ambos têm à sua maneira o dom da multiplicação do dinheiro e tal Midas, o fardo de transformarem em ouro tudo que tocam. Poderia satisfazer o meu asco e dizer que o ouro resvala para a merda como o milho para estrume? Não, não me quero alongar em afrontas e insultos. Vou então, e só para terminar e passarmos sem demorar para a porta do palácio, onde aguardo o exterminador, dizer que nada do que vos contei, me iliba do fim desta história, nem é por si só factor justificativo das acções que a seguir vou narrar; sei-o agora enquanto escrevo."

segunda-feira, setembro 05, 2005

sábado, setembro 03, 2005

O palácio (Work In Progress) 5

Depois do descanso voltei ao Work in Progress. Este é o primeiro rascunho para o terceiro parágrafo.
"Que posso eu dizer dos gémeos Alves da Alves & Alves L.da? Que são diferentes um do outro como água do vinho? Que um é gordo e o outro é magro, um forte outro fraco? Que o gordo empurra o fraco e o magro acolhe o forte? Posso começar por dizer que são gémeos bivitelinos daí não serem fisicamente semelhantes e dizer que são nascidos de um sofrido parto de dezasseis horas que tirou a vida a mãe e lhes roubou para sempre o amor do pai? Poderia também dizer que ambos à sua maneira têm o dom da multiplicação do dinheiro e tal Midas, o poder de transformarem em ouro tudo que tocam. Poderia em jeito de vingança pessoal, dizer que o ouro resvala para a merda como o milho para estrume? Não, não vou dizer nada disto porque este texto não é sobre mim, mas sobre o palácio e não posso falar do palácio sem falar dos gémeos Alves seus proprietários e da bicharada, nunca esquecendo o exterminador, porque é para contar o sucedido com o pobre homem, que ganhei forças para escrever este texto."

sexta-feira, setembro 02, 2005

Coltrane e a Leonor

Peguei nela ao colo e pus uma música para ver se passavam as dores de barriga (malditas cólicas) à minha filhota. Experimentei os Buena Vista Social Club mas em resposta tive um coro de gritos ainda mais fortes e percebi que a Leonor nada queria com música cubana. Tentei um dub jamaicano mas os lamentos arrebentaram ainda mais estridentes e nem a música que o pai gosta resultou; nada de guitarras eléctricas e malucos aos saltos para a minha filhota. Ainda tentei um clássico com o Chopin para ver se os gostos dela eram mais requintados que os do pai, mas nada aconteceu. Foi então, e já em desespero de causa, que tentei o John Coltrane. E não é que os choros pararam, a minha filhota adormeceu quase instantaneamente nos meus braços. Mas o que a cativava não eram os solos de trompete, mas o piano que os acompanhava. Quando o piano se calava, ela remexia-se nos meus braços. “A chupeta, ela quer a chupeta e não podes ter a música tão alto”, disse a Carla sempre atenta. A Leonor adormeceu tranquila e eu deixei a Mãe a pensar que tinha encontrado a solução, mas só eu e ela é que sabemos que foi o piano que acompanhava Coltrane que lhe mostrou o caminho para o mundo dos sonhos.

quinta-feira, setembro 01, 2005

Aqui há gato!!!

Eu sabia que alguma coisa não estava bem. Hoje o buraco recebeu treze visitantes (and counting), todos eles portugueses de Portugal! Admirado, perguntei aos meus botões: será que gostam da seca que estão a levar com o meu rastejante post Work In Progress? Depois descobri que afinal não era um gato, mas um monstro marinho, o gentil Mostrengo Adamastor tinha feito uma referência desta página no seu super-interessante-concorrido blogue.

quarta-feira, agosto 31, 2005

O palácio (Work In Progress) 4

Pronto, o primeiro paragráfo que afinal são dois está pronto apesar de achar que ainda há alguns pontos que podem ser melhorados.
“O Palácio Botelho herdou o nome do seu mais famoso inquilino, o Conde Botelho. O conde foi o último dos grandes boémios portugueses que o século XIX conheceu. O palácio deve igualmente ao conde o seu grande apogeu ocorrido na última década do século XIX. Nessa altura os jantares eram iluminados por candelabros de Paris e incenso da Índia. Pelos sumptuosos salões, políticos faziam politica enquanto namoriscavam donzelas ao som das valsas de Strauss. Era o local portuense onde as soirres eram mais sofisticadas e desejadas. Pelos portões dourados, magnificentes coches de seis cavalos trotavam ocultando os seus discretos ocupantes. Já em pleno século XX, o palácio, viria a conhecer uma lenta degradação, abandono e por fim o esquecimento, tudo em parte pela ruína financeira do conde que não entrou no novo século com tinha saído do antigo.
Quando foi comprado ao estado pela construtora Alves & Alves Lda., um século após as badaladas festas, o palácio estava velho, o telhado desfazia-se pelas intempéries, as paredes bamboleavam ao sabor dos camiões que atravessavam a rua e pedras seculares desmaiavam pelos cantos das salas mais obscuras, só recordando os tempos áureos a alguém com uma imaginação perspicaz. Mas a zona onde estava situado, a enormidade do terreno que ocupava e a beleza exterior do edifício, fez dele um negócio apetecível que os irmãos Alves & Alves, não deixaram escapar; só a fachada restaria do palácio e falou-se em condomínio fechado com garagens individuais e piscina. Este episódio tinha ocorrido há quase três anos, escritura, papéis assinados, licença de obras, tudo arrastado até ao início da reconstrução que começou há uma semana com uma limpeza interior. Contratou-se uma empresa para retirar entulho, arrebentar soalhos, raspar paredes, arrastar móveis e começar desde já a deitar abaixo algumas paredes que não implicassem a sustentabilidade do edifício. Tudo corria bem até os trabalhadores contratados se começarem a queixar dos exércitos de pulgas aranhas ratos que trepavam pelas pernas e se infiltravam na roupa interior, causando comichões vermelhões irritações e sabe-se-lá-que-mais, obrigando-os a fugir espavoridos para a rua mais de dez vezes por dia e procurar os desagradáveis bicharocos nas cuecas meias e virilhas. Contactou-se uma empresa de desinfecção e este vosso humilde narrador e escriturário da Alves & Alves, foi a pessoa encarregada de abrir as colossais portas de dois metros e meio em madeira maciça ao exterminador, já que por esta altura o pessoal contratado se recusava, alegando saúde pública e privada, a por lá os pés até a situação estar controlada e um perímetro de segurança levantado.”
Andemos para a frente antes que a blogosfera perca a paciência...

terça-feira, agosto 30, 2005

O palácio (Work In Progress) 3

Hoje não tive grande tempo para rever, mas um pequeno parágrafo surgiu enquanto pensava no post de hoje.
"O Palácio Botelho ganhou o nome do seu mais famoso inquilino, o Conde Botelho. O conde foi o último dos grandes boémios que o fim século XIX conheceu. O palácio deve igualmente ao conde o seu grande apogeu que ocorreu nas últimas décadas do século XIX e inícios do século XX. Nessa altura as grandes salas eram iluminadas por candelabros de Paris e pelos salões, políticos faziam politica enquanto namoriscavam ao som de valsas. Era o local das soirres mais requintadas e desejadas e pelos portões dourados, magnificentes coches de seis cavalos galgavam em fila indiana. O palácio, a partir da ruína financeira do conde, viria a conhecer uma lenta degradação, abandono e por fim o esquecimento."
Ainda não sei se arranco daqui mas amanhã o primeiro parágrafo vai ficar concluído.

segunda-feira, agosto 29, 2005

O palácio (Work In Progress) 2

Vou seguir o método, imagine-se a presunção, de Gabriel Garcia Marquez, que diz no seu "Viver para contá-la", que nunca passa de parágrafo antes de ter a certeza que o que fechou está cem por cento como ele quer. Então depois de ver o que tinha escrito ontem, resolvi dar uns ajustes e com as alterações ficou assim.
"O Palácio, foi comprado por uma pechincha, estava velho, o telhado desfazia-se fruto de anos de intempéries, as paredes bamboleavam ao sabor dos camiões que atravessavam a rua e pedras seculares desmaiavam pelos cantos das salas mais obscuras, mas a zona onde estava situado, a enormidade e beleza do edifício, fez dele um negócio apetecível que os tubarões da companhia imobiliária, sempre despertos, não deixaram passar; só a fachada restaria do palácio e falou-se em condomínio fechado com garagens individuais e piscina. Este episódio tinha ocorrido há quase três anos, escritura, papéis assinados, licença de obras, tudo arrastado até ao início da reconstrução que começou há uma semana com uma limpeza interior. Contratou-se uma empresa para retirar entulho, arrebentar soalhos, raspar paredes, arrastar móveis e começar desde já a deitar abaixo algumas paredes que não implicassem a sustentabilidade do edifício. Tudo corria bem até os trabalhadores contratados se começarem a queixar dos exércitos de pulgas aranhas ratos e sabe-se-lá-que-mais-bichos que lhes trepavam pelas pernas e se infiltravam na roupa interior, causando comichões vermelhões irritações, obrigando-os a despirem-se cinco vezes por dia na procura dos repugnantes intrusos nas cuecas meias e virilhas. Contactou-se uma empresa de desinfecção e eu fui a pessoa encarregada de abrir as colossais portas de dois metros e meio em madeira maciça, já que por esta altura o pessoal da empresa contratada se recusava, alegando saúde pública e privada, a por lá os pés até a situação estar controlada.”
Vou deixá-lo em banho maria e se amanhã o início ainda me satisfizer, sigo em frente sem mais demoras.

domingo, agosto 28, 2005

O palácio (Work In Progress)

Vou a partir de hoje começar a escrever um conto aqui no blog. Vou rever ajustar mudar palavras e frases diáriamente, até encontrar o objecto final; o conto completo. Se quiserem deixar sugestões são livres para o fazer (eu gostava que fizessem).

A ideia para este conto é a seguinte:
"Um homem que vai desinfectar um palácio antigo, que a empresa onde trabalho comprou, da bicharada que por lá habita, das escuridões do palácio. Eu sou o narrador na primeira pessoa e acompanho o homem na sua tarefa. O homem da desinfecção cheira a suor, tem a barba suja e é todo ele repugnante."

Primeira frase para o conto:

"O Palácio foi comprado por uma pechincha, estava velho, o telhado caía aos poucos, mas a zona onde estava situado a enormidade e beleza do edificio, fez dele um negócio apetecível, que o meu patrão, sempre desperto para ganhar dinheiro, não deixou passar. "Um condomíno fechado, com garagens individuais e jardins neste zona da cidade, vale ouro - disse com a voz grossa que encheu o escritório." Este episódio tinha ocorrido há quase três anos, escritura, papeis assinados, licença de obras, tudo arrastado até ao início da reconstrução que começou com uma limpeza interior, retirar entulho, arrebentar soalhos, raspar paredes. Tudo corria bem até os trabalhadores se começarem a queixar das pulgas que infectavam todos os cantos do palácio. Contactou-se uma empresa de desinfecção e é neste ponto e sem mais rodeios que esta história começa."

Vou avançar daqui e depois logo se vê.

sábado, agosto 27, 2005

sexta-feira, agosto 26, 2005

Restos (Parte III)

A madrugada estende o seu véu negro rastejante pela cidade. Espreguiço-me no sofá. Os olhos pousam sonolentos no écran da televisão sem prestar realmente atenção; as pupilas dilatam-se com os raios de cor, luz e uma sensação de inércia que assimilei como agradável invade-me. Sei os horários e os canais dos melhores programas pela-noite-dentro. Mudo para a Sitcom que vai começar, mudo para os programas de animais, documentários históricos, biografias, publicidade que me faz chorar, filmes que me fazem rir, milhares de pontinhos luminosos a congestionarem o cérebro sem nenhum esforço da minha parte. Mudo novamente. Mortos no Iraque, fome em África. Tenho tudo que preciso aqui neste sofá. Conto cinco segundos, cinco crianças mortas à fome, conto um minuto, um petroleiro faz uma descarga ilegal, conto para sentir o meu tempo a passar, o meu corpo a envelhecer, a morte a chegar. Rebeldes num país esquecido, praticam genocídio por vingança de anos de escravidão; a última contagem era de quatro mil degolados, centenas de mulheres violadas e corpos de crianças espalhados pelas ruas em torrentes de sangue. “Os rebeldes andam de aldeia em aldeia a matar tudo que respire.” Um homem com os olhos cansados desenraizados agarra com ferocidade um microfone. “Degolam mulheres e crianças”. Esfrego as mãos e bebo um trago de água gelada. Em rodapé: O líder dos rebeldes aceitou ser ouvido pela ONU. Em rodapé: Líder rebelde abre corredor para comboios humanitários, mas não garante a sua segurança. Carrego impaciente no botão. Uma bela mulher, bela demais para ser mulher de alguém, remendada artificial, é demais para usar avental, anuncia um pacote instantâneo que basta pôr no micro ondas dois minutos para termos um belo jantar.

quinta-feira, agosto 25, 2005

As cores do descanso



Um revigorante mergulho verde no sufoco da paisagem d´ouro.


Uma cerveja fresca na noite quente da gorda lua laranja.


No alpendre enquanto a encosta é lambida pelo fogo vermelho.

sexta-feira, agosto 19, 2005

Chegou a minha vez...

Vou para fora cá dentro, para onde o vinho, o pão e a água são muito mais saborosos.
Esperemos que sem incêndios nem fumo se não for pedir muito.

Até breve.

Parabéns

A minha filhota fez hoje um mês.

quinta-feira, agosto 18, 2005

O café

Andava toda a gente alterada, nervosa, uma opressão no ar que não se vê mas que se sente, envolvia todas as ruas becos avenidas esquinas de toda a cidade e foi isso que nos fez reparar no homem que entrou no café. Tinha a pele tostada curtida pelo sol, uma face esguia de onde se erguia um nariz saliente; a saca que pousou aos pés do balcão e a dificuldade em se exprimir na nossa língua, congestionou a atmosfera do café tornando-a pesada e quase, quase palpável. Os primeiros a levantarem-se foi um casal que trocava beijos num canto mais resguardado, pediram a conta e saíram rapidamente. Quase de seguida, um grupo de estudantes, tolhado de um medo indizível, desapareceu pela porta e na mesa ficaram restos de bolos por comer e beatas por apagar. O homem continuava no balcão, não tinha cara de acreditar que seis virgens o esperavam no paraíso, mas hoje em dia não se sabe, não se sabe certo? Tomei o meu café, lutando com a minha moral e convicções, não podia ceder a este tipo de pressão, era apenas um homem que ali estava, porventura com tanto medo como nós, numa terra estranha onde provavelmente tinha acabado de chegar e onde depois de trabalhar era explorado por alguém. Fumei nervoso o meu cigarro. O homem, neste momento definitivamente arábico, lutava com as palavras presas na língua para ele incompreensível. O dono do café apercebendo-se da debandada dos clientes, empoleirava-se no balcão tentado perceber o que se passava. Por fim, o homem da tez morena, conseguiu arrancar a informação que desejava e saiu pegando no saco aos pés do balcão. Apaguei o cigarro e sai vitorioso e tremendo para o espaço aberto da rua.

quarta-feira, agosto 17, 2005

Primeiro beijo

O meu primeiro beijo com língua foi nas dunas de uma praia ventosa com uma espanhola já conhecedora da arte. “Uma dúzia - disse-me orgulhosa. - Já vou na dúzia de beijos de língua e até tenho dois namorados em Espanha.” Verguei-me humilde, sem coragem para desvendar a minha realidade bem menos atractiva. Nesse mesmo dia fui picado por um peixe-aranha e aguentei estoicamente o choro até as traiçoeiras lágrimas caírem; aceitei o castigo e, passados estes anos, penso que a minha fé se começou a degradar nesse momento, mas com castigo divino ou sem ele, estava mais que pronto para uma nova viagem.

segunda-feira, agosto 15, 2005

Nóticias de choque

Hoje o jornal da noite da RTP, passou cinco minutos a falar de um grupo de escuteiros que, imagine-se o inusitado, veio de autocarro de Londres!!! À chegada os familiares choram perante tamanha aventura..! Não vi os outros telejornais, mas imagino que a coisa deve ter sido parecida.

domingo, agosto 14, 2005

Fim de tarde

O velhote andava a passear pela baixa e era uma personagem como nunca tinha visto. Vestia um sobretudo preto que assentava sem dobra nos ombros mirrados. Nos pés, uns sapatos pretos com sola de couro, engraxados e polidos por mão de artista. Uma observação mais cuidada, desvendava um bigode republicano bem tratado, equilibrando a cara esguia e bicuda em forma de pêra. Cabelo ainda o tinha, pintado de negro asa de corvo, sem fio branco. Do centro do rosto, um proeminente nariz com segredos de mil e um cheiros erguia a sua haste, mas o centro nevrálgico eram as sobrancelhas, grossas e respeitosas. Encontrei-o passeando pela baixa, balouçando a bengala com um punho de prata maciça em forma de ganso e olhando com ávida curiosidade para os edifícios, ruas, pessoas e montras como se fosse a primeira vez. De vez em quando sorria, não de ninguém ou de algo em especial, eram só esgares descomprometidos e livres de complemento. Segui-o durante algum tempo, não tinha pressa para ir onde devia. Subiu em direcção à ponte e eu tive um mau pressentimento; um general que adivinhando o fim, veste a melhor farda, dá lustre às medalhas e pega na arma para um último disparo. Ia em direcção à ponte e decidi ir atrás, não fosse o meu olfacto estar correcto. Quando chegamos ao largo da Sé, duas crianças correram em direcção do velhote que as acolheu nos braços e as ergueu no ar como balões. Do bolso do sobretudo, o velhote tirou dois chupas do tamanho de antebraços. Sentei-me rindo do meu fraco nariz. O velhote acenou a uma mulher que fumava encostada a uma porta do convento, mas a resposta foi um virar de costas. Uma das crianças passou a correr bem perto de mim, soltando um grito de criança. O velhote aproximou-se da mulher mas esta deteve-o, ameaçando de nunca mais ver as crianças. Era bem mais nova, talvez fosse filha e as crianças netos. Depois olhou o relógio, chamou as crianças e desapareceram pela quelha. No miradouro da Sé, meti uma moeda no binóculo para ver a ribeira, mas o dia estava enevoado e além dos telhados das casas e dos gritos rúbeos das gaivotas, pouco mais se vislumbrava ou ouvia.

sábado, agosto 13, 2005

Leituras 5



Foi uma coincidência devo admitir, embora depois de ler os oito contos deste “O Buraco na Parede”, me custe esse facto, porque podia ser uma homenagem e se assim fosse, só o meu blog ficaria a ganhar. Mas a verdade é que a única coisa que sabia de Rubem Fonseca, era que tinha sido galardoando com o Prémio Camões em 2003, mas ainda não tinha sentido curiosidade para o procurar. Assim, esta singela coincidência de nomes, fez-me encontrar um autor que merece que os leitores menos atentos, como eu, o encontrem.

sexta-feira, agosto 12, 2005

Um gelado na praia

Caminhávamos os dois ao fim do dia. Nada como um gelado ao pôr-do-sol. Os meus passos seguindo os teus passos, esmagando a tua fina pegada na areia molhada. O perfil da tua carne branca numa toalha azul. “Passa para a frente. Quero seguir teus passos agora.” Corri até me perder e nesse espaço de tempo o avião explodiu no ar. Transformou-se em segundos numa bola de fogo, fumo e combustíveis fosseis; nenhum passageiro sobreviveu. Até hoje ninguém sabe ao certo o que desencadeou a explosão, embora se fale pelos corredores e hangares da companhia aérea em ataque terrorista? Falha mecânica? Ouço o teu nome na garganta de um pássaro, não são bem as sílabas do teu nome mas é por ti que ele chama.

quinta-feira, agosto 11, 2005

Enquanto não começa a bola...


...vai-se jogando um ISS PRO para matar o bicho.

quarta-feira, agosto 10, 2005

"Heroin, it´s my life and it´s my wife"

Por falar em Velvet Underground, existia na escola preparatória Gomes Teixeira, quando para lá fui estudar, 82/83, uma grafite em letras brancas corridas, virada para a rua Júlio Dinis, que alertava os transeuntes dizendo: “Heroin, it’s my life, it’s my wife!”. Aquela frase fora do contexto sempre intrigou os meus 12, 13 anos; que mulher, que heroína inspiraria tamanha devoção? Mais tarde descobri o grito de Lou Reed e com ele veio a guerra, as mutilações, os petardos a caírem sem piedade no meu bairro, abrindo intransponíveis crateras entre famílias e amigos.

terça-feira, agosto 09, 2005

Regresso

A chuva chegou com força demoníaca varrendo a cidade da sujidade. Escorriam rios de água e lama pelas ruas desertas. Cães vadios remoíam o lixo e candeeiros com luz trémula perfilhavam os passeios em legiões de fantasmas. A mulher tinha desaparecido o emprego era uma farsa. Rajadas de vento levantavam nuvens de folhas do chão que se erguiam no ar em pequenos espirais. As mãos geladas a custo tiraram a chave do bolso; a fechadura acolheu a velha amiga. Subiu as escadas carcomidas de húmidade e maus-tratos. Onde estava alguém? Sentiu uma estranha necessidade de fazer algo por aquele pobre prédio, talvez envernizar as escadas. Podia arranjar o soalho de casa. O cheiro da intimidade misturava-se com o ar fresco da janela aberta. Lavou a cara com água morna e deixou-se ficar a olhar ao espelho até os olhos, o nariz e a boca se começarem aos poucos a deformar e uma massa de carne aparecer reflectida; uma outra face no espelho, neste momento era a dela. Tirou a garrafa do saco e deu uma golada; a pressa de chegar a casa desapareceu, agora queria sair, mas para onde ir; a alma rota esvazia. Não havia preparação para tal coisa. O cheiro a mofo dos livros nas estantes, o papel na parede, o sofá restaurado, tudo aquilo era dual. Não demorou muito tempo até M. pegar num martelo, numa chave de fendas e começar a arrancar os tacos do chão.

segunda-feira, agosto 08, 2005

Companheiro de fumo

Sempre que venho à varanda fumar um cigarro, lá está ele no prédio do outro lado. Não lhe consigo ver as feições, só a beata incandescente entre as janelas da marquise, mas sei que está a olhar para mim como eu para ele.

domingo, agosto 07, 2005

6 de Outubro de 1972



Fiz uma pesquisa na net para descobrir personalidades que fazem anos no mesmo dia do que eu. Descobri dois jogadores da bola, um defesa sueco (Andreas Jakobsson) e um guarda-redes australiano (Mark Schwarzer). Depois há um jogador de futebol americano J.J Stokes (poderoso quarterback), aquele ali em cima com o número 83 e um actor Koreano chamado Ryu Si Won. Nunca tinha ouvido falar deles e eles certamente nunca ouviram falar de mim, mas que temos algo em comum isso ninguém pode negar.

Em anos diferentes mas também a 6 de Outubro, temos o primeiro dia de emissão da SIC e a morte da Amália Rodrigues. Sim é verdade, desde à cinco anos para cá, que passo o dia de aniversário a ouvir a saudade e a melâncolia do fado; como se já não bastasse o facto de envelhecer mais um ano.

sábado, agosto 06, 2005

Dia de pesca

Acordei sobressaltado já passavam dez minutos do meu horário de trabalho. Tomei banho à pressa, engoli um copo de leite frio, vesti-me, abri a porta da rua e voltei à sala; sentei-me, hoje não ia trabalhar. O dia estava lindo e o sol primaveril espreitava pelas janelas. “Estou? Susana? Diga por favor ao Sr. Luís que não vou trabalhar, passei mal a noite e vou ver se arranjo uma consulta.” Fui à despensa e tirei as canas de pesca, herança do meu avô; testei o carreto em frente ao espelho. “O Sr. Luís telefonou a dizer que também não vinha trabalhar, parece que o mal é geral”. O carreto lubrificado com óleo de fritos deslizava na perfeição; chumbos em forma de corações e anzóis em forma de anzóis. Vesti um colete verde tropa que nem sabia existir. Arrumei as tralhas dentro de um saco de pano com cheiro a minhoca tostada e desci as escadas, eu, o pescador. Só depois de arrancar o carro é que me lembrei que nunca tinha pescado sozinho o que só aumentou a minha determinação.
Um cartaz na marginal: “Temos Bixa.” Mas naquele dia, só pulga: “É melhor para o robalo.”
Montei um pequeno banco de tecido. A primeira vez que lancei, ficou tudo no rio, só não foi a cana porque a agarrei, a linha velha e gasta rebentou; só um pequeno contratempo até o robalo de cinco quilos saltar para o meu cesto. Lancei. Foi um bom lançamento quase alcançando Gaia; sem obviamente exagero nenhum. Sentei-me à espera. Os barcos, os barcos rasgando a água. O sono morno. Um casal passeando de mão dada. Um puxão, agarrei na cana, outro puxão. “Deixa-o cansar, o peixe precisa de pensar que está a salvo, não queiras tirá-lo logo, dá-lhe linha, não o assustes.” Senti-lhe o pulso dei-lhe linha e ele foi. Por cada espaço que lhe concedia, puxava o dobro para a margem. Com a mão livre tentei chegar ao saco. O coração disparou, o Sr. Luís, olhava-me por cima do ombro. Estava acompanhado de uma jovem e bela rapariga. Parei. Fingi não ver. “Não deixe o peixe escapar homem”. Tentei concentrar-me no peixe, vi-lhe a boca na superfície espelhada. Estava sem forças para se debater, no ponto onde eu o queria. Levantei a cana e agarrei-o com a mão esquerda. “Que belo peixe”. Disse para a sorridente adolescente recomeçando a andar. Mas era só uma velha tainha e aquela rapariga não era a mulher do Sr. Luís.

sexta-feira, agosto 05, 2005

Os teus beijos

Os teus beijos ondas do mar
Os teus beijos ferro em brasa
Os teus beijos sufocados
Os teus beijos bom dia.
Os teus beijos espadas
Os teus beijos água fresca
Os teus beijos vorazes
Os teus beijos boa tarde.
Os teus beijos folhas de eucalipto
Os teus beijos montanha de neve
Os teus beijos relâmpago
Os teus beijos boa noite.

quinta-feira, agosto 04, 2005

Dia na cidade

Quando a manhã regressou ao Porto e o encontrou com nuvens de fumo no ar, recusou-lhe a luminosidade; depois o sol, tossindo febril, amarelou doentiamente o fim de tarde.

quarta-feira, agosto 03, 2005

terça-feira, agosto 02, 2005

Drunk

I think I´m getting drunk
No love can save me now
I just want a last beer honey
To go away from this crazy town

I must be dreaming
A happy end
I´m to drunken baby
Please be my friend

And buy me a last bottle
I don´t have no money left
Please, please, please the last one
I promise I don´t chase you anymore

I must be dreaming
With a happy end
I´m to drunken baby
Please be my friend

I got bad liver
Right one
I got bad brain
Come on
I´m a loser baby
Right one

segunda-feira, agosto 01, 2005